Prisão

Estou deitado em minha cama com o ar-condicionado próximo aos dezoito graus. Um segredo meu — que fica entre nós — é que sou apaixonado por ficar horas enrolado em cobertas enquanto as baixas temperaturas permeiam os poros da minha pele até não aguentar mais. Ao meu lado, está um livro aclamado pela crítica, mas que ainda não li: “Lutas e metamorfoses de uma mulher”, de Édouard Louis. Assombra-me seu pequeno formato de gibi e suas páginas pequenas com quatro parágrafos cada — no máximo. Eu não sabia, mas ali estava a pauta de uma das minhas reflexões mais profundas.

Decido abrir o livro mesmo já estando tarde e já tendo finalizado um naquela manhã. Leio as primeiras cinco páginas e descubro que seu pequeno formato é fruto de suas concisas reflexões puramente expositivas. Um filho que conta quantas trocas de pele sua mãe teve que ter para suportar a vida com homens abusivos que de nada lhe agregavam, que não fosse o bolso. Li, deleitei-me e finalizei o curto livro naquela mesma noite, satisfeito pelo meu progresso. Deixo-o ao meu lado e vou dormir. Se ao menos um pensamento estivesse fora de mim e pudesse me deixar pegar no sono.

Na manhã seguinte, olho para minha mãe e não consigo esconder a surpresa. Nada demais acontecia: ela lava os pratos sujos da janta da noite anterior enquanto me pergunta o que quero de café da manhã. Olho para ela embasbacado e nitidamente com o pensamento longe. Invado um território que não é meu. Invado o território do que meu pai representa em sua vida. O que ele proporciona? Começo a fazer perguntas cada vez mais profundas. E acabamos discutindo.

Falei o que queria. Ouvi muito do que não queria. Mas, no fim, saí com mais respostas que perguntas (seja isso bom ou ruim). Saio do ambiente e vou direto para a minha livraria caseira. Sento-me na cadeira e aqueço um café. Olho para o lado e vejo minha carteira sentindo que ela não me pertence. Não faz parte de mim. Abro-a e vejo que ali estão dois cartões dos mais exclusivos do banco. Sei que ali nada é meu. O meu é com dinheiro do meu pai e o da minha mãe é com dinheiro do meu pai. É uma prisão ao meu pai.

Olho para eles ali e decido que preciso fazer alguma coisa. Puxo com raiva e veemência o cartão da minha mãe — com o dinheiro do meu pai — e devolvo para ela. Entrego e me iludo com a simples frase: “estamos livres”. Completo com algo ainda mais poético… “não vê, mãezinha… o que fazes? Brigando com seu filho mais próximo e afetivo por um homem que usurpa de ti a liberdade. Repetindo pensamentos que não são seus em nome de tão pouco… que fazes, mãezinha?”. Nesse tom poético e encantado, fecho a porta do escritório e me sento no puff. Não sei o que acabei de fazer. Um bipolar de liberdade instantânea com sentimento de queda. Queda financeira.

O quanto nos submetemos por tão pouco? Foi essa a pergunta que permeou meus pensamentos durante todo o dia de hoje. Conheço uma moça no site de aplicativos, muito encantadora e com pouco mais de trinta anos. Perfeita para mim. Saio com ela, comemos e jantamos. Enquanto acaricio seus seios e dou-lhe um beijo ao fundo da alma, sinto que ela se excita e instantaneamente pergunto a mim mesmo o que torna um homem capaz de usar uma mulher em benefício próprio. Perco a excitação e corro para o meu bloco de notas. Coloco lá o pensamento que aqui exploro. Ela pergunta se não há nada de errado. Respondo que escrevo e que as ideias não se importam com a felicidade do meu pau. Volto a acariciá-la e transamos.

Foram nesses poucos minutos que consegui tirar a seguinte pergunta da cabeça: qual o tamanho da prisão dada pelo dinheiro? Mesmo relendo alguns autores importantes e refletindo um dia inteiro, não cheguei a nada plausível. Pergunto agora a você. O que me diz? Fecho esse laptop nesse momento com a certeza de que tu também tens pouca noção da resposta.

Pense nisso.

PS: Se está curioso sobre minha mãe, meu primeiro livro será sobre isso. Uma obra autoficcional.

Deixe um comentário