Era tarde e não se pode culpar o sol e seu mormaço por nenhuma das cenas a seguir escritas. Seria um ultraje, no mínimo, culpar seus efeitos pela metafísica que circundou a estranha tarde de hoje. Mas, ainda assim, foi uma tarde que mereceu registro pela comicidade.
Na calçada já se via a principal personagem dessa história: dona da Graça. Professora (sabe-se lá como) do primário aposentada pelo Estado e pela prefeitura. Sentadinha no banquinho de visitas do condomínio, desde a esquina já se avistava a peça fazendo um caça-palavras que eu lhe dei duas sacolas na última vez que a vi.
Nem bem cheguei na porta e ela me avistou para a visita que pretendia lhe fazer
– José, meu filho! Vem pra cá.
– Vó! Como vai?
Pois passei pela portaria, cumprimentei o porteiro e segui para o banco que dividia a companhia com ela. Um cheiro meio estranho, meio azedo a circulava. Não sei ao certo, mas como ela quebrou a clavícula em uma queda, não mexia o braço além da metade pra cima. Podia pagar alguém para ajudá-la, mas isso é para os bestas e moles – segundo ela mesma.
– Então diga lá, vó. Quais são as novidades?
– Menino, essa vida não me presenteia com uma fofoca faz anos…
– É mesmo? Mas não é possível que a senhora não tenha nada de novo para me contar. Passas o dia aqui na portaria e quando sobe, assiste o Sikêra Jr. na TV. De algo tu sabe.
– EU? Desse condomínio aqui não quero é saber de nada – com uma entonação revoltada e distante ao mesmo tempo.
– Quem é o síndico disso aqui?
– E eu lá sei. O nome dele é Fá… sei lá dessa porra.
– Tá bom, então…
À nossa frente, uma menininha de poucos anos – no máximo cinco – brincava com seu patinete novo. Caía mais que andava, mas assim ia.
– Tá vendo essa menina aí, Zé?
– Tou, vó… que que tem ela?
– Filha de juíza aqui do Estado…
– É mesmo? E quem é essa ao lado dela?
– Parece que é a cuidadora. Ganha dois mil reais. Trabalha de segunda a sexta das nove às cinco. Coisa de doido.
– Entendi… qual o nome do síndico daqui mesmo?
– É seu Fábio do oitavo andar. Pense num cabra safado!
E tapou a boca ao mesmo tempo que acabou de finalizar a frase que dissera.
– Parece que hoje vai ter uma assembleia aqui no condomínio…
– Vão discutir o quê?
– E eu lá sei. Sei que seis da tarde tou aqui embaixo pra assistir. Tomara que aquele cabra safado diga que vai entregar a sindicância.
– Entendi… quem é aquele que tá lá na portaria?
– Aquele ali? Pois, tenente da polícia, meu filho. Precisar de alguma coisa, fale com ele. Vou mais longe com você, ele é da polícia e a mulher entrou por ele. Ela era sei lá o que da prefeitura e depois que casou com ele entrou na polícia também.
– Casal boca de bala, né vó?
– Vira essa boca pra lá, cabra safado. Já parou de ir no banheiro? Sua mãe me disse que a coisa tava ruim…
Eram tantas as mentiras que já nem lembrava que minha mãe tinha falado que eu tava com caganeira pra evitar algum almoço amolado de domingo.
– Tou 100% por já.
Depois de um tempo em silêncio enquanto ela fazia meia dúzia de caça-palavras que eu lhe dera, me despedi.
– Vó, tenho que ir embora. Semana que vem dou outra passada por aqui.
– Tá bom, meu fio. Apareça sempre que quiser.
Vai ver, semana que vem eu já consigo saber qual o salário do policial.