Infelizmente, tive que chamar a polícia. Encurralado pela displicência do síndico e pelas tentativas estéreis da portaria, eu tinha que fazer alguma coisa. O som estralava, e a música não havia sido escolhida por mim. Muito mais do que um som ambiente, era uma presença que adentrava meu apartamento pelas frestas cobertas da porta. Isso me incomodou tanto que eu precisei agir.
E senti muito por isso. Muito medo. Medo de lidar com agentes do Estado autorizados a usar força contra qualquer ameaça. Medo de ser identificado pelo vizinho que bebe e grita com o porteiro. Mas eu fiz. Fiz e pedi ajuda. Pedi colo à minha mãe.
Era noite e você aceitou meu pedido para dormir comigo, ao menos essa noite. Toda vez que esse pedido te aparece, seu instinto materno aguça e você não recusa o convite. Eu estou assustado e tento esconder. Eu sei que você sabe — e eu sei disso — mas ainda assim seguimos.
Jantamos e a noite fria de São Paulo desce. Acostumada com muito pouco desde a infância, o sofá-cama te atende. Você o estende na largura máxima e dorme tranquila, sem reclamar.
Eu havia te pedido para sair dele alguns dias atrás. Talvez eu fosse o bêbado que liga o som alto e grita com o porteiro. Mas, no meu caso, eu estava embriagado por pensamentos. E gritei com a minha mãe.
Você decide que deve se deitar e dormir um pouco. São onze da noite e seu horário de acordar nunca passa das sete da manhã. Com uma coberta grossa e dois travesseiros, ouço você se aninhar e buscar o melhor do seu sono. Talvez na bipolaridade do ressentimento da discussão anterior e no orgulho da atitude que tomei, você dorme.
Estou sentado com este laptop no colo. Rodo pastas do meu computador em busca dos temas que separo para refletir junto com você. O frio de dezoito graus do ar-condicionado recém-instalado se faz presente e eu puxo a coberta mais alguns centímetros para frente. Não encontro nada relevante. Nada que me faça pensar que seu tempo seria bem gasto comigo aqui. Então abro um livro.
Dou duas ou três respiradas fortes para me concentrar, e percebo que minha atenção já tinha sumido das páginas fazia algum tempo.
Ouço seu roncar. Esse roncar já esteve comigo quando eu estava com você na cama, há algumas décadas. Esse mesmo roncar que ouvi alguns dias atrás, quando acompanhei sua cirurgia. Esse mesmo roncar que me devolve as memórias mais doces de quando os pensamentos me tiravam o sono desde a infância.
Mas agora ele não me incomoda. Eu não o escuto esperando pelo meu sono, como se sua missão fosse me fazer dormir. Eu não espero que ele acabe. Eu o acompanho, como quem acompanha um farol, esperando que dele saiam alguns pensamentos úteis para o meu afeto e para a sua companhia.
No fundo, eu precisava de um toque para me lembrar que a sua presença me faz falta. É uma pena que você não leia meus textos e eu não possa receber essa declaração de afeto do jeito mais fácil.
Ouço seu roncar e vejo o quanto me sinto acolhido, protegido e amado. Esse roncar era a simbologia que eu precisava para poder deixar o livro marcado na página duzentos e ir para a cama. Eu não queria pensar. Eu só queria respirar e ouvir.
Mesmo sabendo que, se algo acontecesse, você não seria fisicamente capaz de me proteger, o seu roncar me dava a proteção necessária para algumas horas de sono.
A polícia veio e fez seu trabalho. Você veio dormir com seu filho. E ele ficou com a lição mais serena e profunda possível: de que o colo da mãe é o único capaz de tirar de si, por instantes, o peso de viver.
Obrigado.