Má-fé

Ao longo da minha vida, tive a sorte de ter um mentor. Um orientador externo que guia parte da sua trajetória com uma opinião que você valida e com uma responsabilidade que você transfere. Tive um na faculdade. Ele era professor e eu só um aluno meio doido da graduação. Olhava para ele com excelentes olhos e babava um pouco de ovo (no sentido poético, faça-me o favor). Muito do que ele falava, eu jamais tive a ousadia de retrucar ou questionar — por mais que ele estimulasse isso. Até que um dia eu tive um insight, a partir de uma fala dele, que mudou a forma como eu o enxergava.

Estamos na sala dele, cheirosa como mofo. Eu, perfumado de Malbec, como sempre pede mamãe, achava aquilo um ultraje — mas eu já te disse que babava o ovo dele, então isso não importava muito. Ele, com o notebook em mãos, e eu com meu bloco de notas e caneta prontos para obedecer.

O comentário dele foi simples: a ideia por trás de todo mundo que defende a intervenção do Estado na economia é linda, mas não funciona.

Olho para ele com uma sensação de dúvida forte, incutida. Ele nota e, como sempre, prefere continuar o raciocínio antes de abrir espaço para perguntas. Comenta sobre corrupção, sobre uso de dinheiro público, sobre como as massas são manipuladas em prol dos políticos de esquerda — todo aquele discurso que eu já sabia que ele não só comprava, como vendia.

Eu olho de novo e pergunto:
— Você me falou que desejava que sua filha fizesse universidade pública. Isso não soa contraditório?

Eu falo de mente aberta, não para insultar, mas para entender. Ele me encara e comenta que eu o peguei na curva. Que essa era, de fato, uma questão complexa. Por fim, ele diz que, no fundo, tudo é uma questão de “incentivos”. Ele entende a contradição e acredita nas próprias convicções, mas não pagar a faculdade da filha — mesmo podendo — é um incentivo mais forte do que qualquer argumento.

Eu não retruco. Mas também não anoto.

Um estudante firme da filosofia sartreana diria: má-fé. Sim, má-fé, no sentido que você conhece. Quando um sujeito sustenta certas convicções para o mundo e, na hora de decidir por si, escolhe o atalho que o beneficia, ele se esconde atrás do discurso. E isso, para mim, é má-fé.

Você pode ter a curiosidade de me perguntar qual é o mal disso. Ora, ele não bateu em ninguém. Não ofendeu ninguém. Não colocou alguém em uma situação pior só com um comentário. Mas, para mim, ele agiu de má-fé — e não me crucifique ainda, deixe-me explicar.

Parte da nossa existência só existe porque é validada pelo outro. Então, sempre que tomamos decisões, nós as lançamos ao mundo como se fossem, em algum nível, modelo do que acreditamos ser correto. Assim, quando alguém proclama a privatização de todos os bens públicos e, ao mesmo tempo, induz a filha a fazer universidade pública, ele terceiriza a responsabilidade da própria liberdade. Ele chama de “incentivo” aquilo que, no fundo, é escolha. E escolha exige autoria.

Dúvida de mim? Leia O existencialismo é um humanismo, do Sartre. Você vai entender melhor — e talvez até fique mais feliz.

Olho para o meu bloco de notas e o fecho. Acredito que essa foi a primeira vez que saí de lá com ele fechado. Sem nenhum ensinamento guardado que pudesse me ser útil no futuro. Mas com uma sensação de amadurecimento. Daqueles estralos que só se tem uma vez na vida.

Meu mentor não é perfeito e eu não sou obrigado a aceitar a verdade dele. Caso contrário, eu mesmo estaria utilizando a má-fé, tornando a minha liberdade condicional ao pensamento de outro.

Saio da sala e me liberto do mofo. E, por alguns instantes, das amarras do pensamento liberal.

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