Ah, quando é que me livro da Rua Vieira de Morais. Moro e trabalho por ali, e o caminho de casa ao serviço é sempre um tanto acachapante. Vejo de tudo: a meninada saindo da escola, o empregado cabisbaixo que volta ao trabalho, e, às vezes, a turma da obra descendo para o almoço. Essa última cena, amigo leitor, sempre me rendeu certa alegria — até hoje, quando vi algo que me fez pensar no quanto, em matéria de sexualidade, ainda somos animais grandes e desajeitados.
A cena se passa na maior metrópole da América Latina, onde ter tudo à mão é uma delícia que de repente se dissolve numa bofetada de constrangimento. Ali mesmo, na minha rua, funciona uma dessas academias de cinema: quatro andares, uma dezena de professores, e quase todo o quarteirão circulando pelas suas portas.
Foi para lá que ela caminhava. Uma mulher — não preciso descrevê-la em detalhe, e talvez já tenha dito demais ao reparar tanto — atravessava o trecho em frente ao canteiro de obras. Caminhava distraída, como qualquer um caminha à beira do meio-dia.
É uma pena, leitor, ter de relatar o que vi. Mas a cena foi essa, e fingir que não foi seria a primeira covardia.
A turma da obra ia diminuindo o ritmo dos movimentos à medida que o horário do almoço se aproximava. A cada passo que a mulher dava, mais pás baixavam, mais corpos se encostavam na parede vazada de arame. Um quase silêncio se formou — desses que toda mulher reconhece antes mesmo de virar o rosto.
E ela virou. Olhou por cima do ombro, viu a fileira de homens parados, e o passo, que era distraído, virou depressa. Trocou a garrafinha de água da mão direita para trás do corpo, cobrindo-se um pouco mais com a blusa — esse gesto pequeno, treinado, que não se aprende em lugar nenhum e que toda mulher, em algum momento, já fez.
Foi aí que me dei conta, com algum susto, de que eu também estava olhando. Não como eles, decerto — mas olhando. E é desse incômodo que queria escrever: não da brutalidade alheia, que é fácil de condenar, mas da facilidade com que o olhar masculino se instala em qualquer lugar, inclusive no meu, antes que a gente perceba.
Há algo de mais fundo nisso, e a própria língua entrega. Repare nos nomes que damos ao sexo do homem: quase todos agressivos, pungentes, feitos para invadir. Os nomes do sexo da mulher, em contraste, vêm embrulhados em delicadeza ou em suspeita de sujeira — como se precisassem, todo mês, justificar a própria higiene. A rua repete, em gesto, o que a língua já organizou em palavra.
Sigo o caminho para o serviço embriagado por esses pensamentos. O trecho é curto, e o resto da manhã não traz novidade.
Quem sabe um dia eu me livre da Rua Vieira de Morais. Mas temo que ela, a mulher daquela manhã, não tenha esse luxo: precisa atravessar uma versão dessa rua todos os dias da vida.