Esses dias andei conversando com meu orientador dos tempos da faculdade. Conversava muito com ele — e converso até hoje. Passados alguns anos desde então, à distância, vejo o quanto seu papel era o de me trazer para uma linha constante, menos espalhafatosa, antes mesmo de me formar pesquisador. No meu âmago, sei que, no fundo, ele sabia: eu aprenderia o ofício com a vida; o difícil seria o resto. Por carta, disse-lhe que me julgava uma pessoa muito pessimista no passado, mas que hoje tenho certeza de que era apenas realista.
Àquela altura, eu punha minha validação no sucesso acadêmico e financeiro. Insatisfeito com as decisões que havia tomado, deixava que o passado tomasse o presente e, no delírio entre todos os tempos verbais possíveis, gastava menos energia do que podia. Para não te ser infiel, listo aqui, por parágrafos, algumas dessas decisões.
A faculdade. Demorei, e como demorei, para escolher um curso. No fundo, sabia o que queria; mas a opinião e a validação de qualquer pessoa que se julgasse mais experiente pesavam tanto que cheguei a trocar de curso — pasmem — oito vezes.
A universidade. Como fui um adolescente rebelde e pouco estudioso, aproveitei mal as oportunidades de me dedicar e entrar em uma instituição de ponta. Meu orientador graduou-se e doutorou-se na melhor do Brasil. Eu o admirava por isso.
Sabia também da minha dificuldade com relacionamentos. Não os que chamamos de amizade ou conhecido, mas os que chamamos de amor. Por vezes ia de cabeça em alguma possibilidade que surgisse e dava de cara com o abismo de saber que nada do meu vazio seria verdadeiramente preenchido pela presença do outro.
Não é fácil. Hoje o dia garoa e não se vê um palmo à frente na capital paulista. Moro em uma rua bipolar: de dia, não fala com ninguém e dá medo caminhar; à noite, as belas casas de swing e os bares povoam a calçada de vigias, seguranças e bêbados perdidos.
Vejo aquela imensidão de carros e gente. Amigos, casais, conhecidos, solteiros. Penso neles como penso na minha solidão. Gostaria de não ter de escrever sobre isto — de não ter de admitir que há dias em que apenas uma dose de vinho desacelera o ir e vir dos meus nervos.
Leio uma poesia, uma bela prosa e, às vezes, um romance. Sacio-me por vinte minutos que seja, ou ao menos distraio os pensamentos. Mas, logo depois, penso no que fiz e no quanto corri para chegar até ti.
Tu nunca estiveste, de fato, em uma relação não tóxica comigo. Plantaste em mim a ânsia e deprimes minha mente quando imagino como seria o amanhecer no teu abraço. Mais do que a imaginação, tu mesmo sabes: isso nunca vai ocorrer. Não porque eu não queira — mas porque tu não queres.
É triste o andar de quem não se sente completo nem aceito; de quem recusa qualquer aproximação com medo de que descubram seu maior segredo.
Num mundo hostil, em que as pessoas se tornam más sob o único argumento da defesa, é triste e lamentável viver.
Ó morte. Nunca te experimentei — mas, quando vieres, não sei a quem, de mim, te daria.