No crédito, mãe!

Olha, meu caro e cara. Essa é direto dos vinhos de Milão para você. Abro o coração e trago uma resenha que nasce do mais íntimo extrato bancário da família e desemboca nos seus olhos — e, com sorte, na sua mente. Não é por mal: jovem adolescente pobre tem seus desejos. E deve saná-los.

Mamãe sempre deixou clara uma coisa: “não deves reprimir teus desejos. Se tiver atração por mulheres, vá em busca delas. Se por homens, vá em busca! Não se guarde por preconceitos bobos.” Foi tudo o que precisei ouvir. Pensei comigo: então estou livre para ir ao puteiro com o seu cartão.

E assim o fiz. Mamãe é uma mãe e tanto. Quando minha irmã, sempre meio afastada, foi ao Sul cursar Engenharia numa faculdade decente, minha mãe fez de tudo para que ela tivesse uma vida minimamente confortável lá. A cada dois meses pegava um avião, visitava a moça e deixava a geladeira invejando o açougue de várias bodegas. Para não me deixar desamparado, esquecia comigo o cartão de crédito. E a chave do carro.

Sim, eu era menor de idade, e ela não suspeitava que eu pudesse ter o desejo de dirigir aquele carro apertado. Pequeno, magrelo, pouco atraente — eu não tinha cara de quem teria a audácia de pegá-lo para dar uma volta e fumar uns cigarros lá dentro. Pois peguei.

— Fala, Luisinho! Beleza? Cara, tô sozinho aqui em casa. Vem pra cá e traz o Lucas junto.

— Tô chegando agora!

— Demorou!

Eram duas da tarde e eles chegaram pontualmente. Logo enrolaram alguns cigarrinhos de artista e ficamos conversando — sobre a vida, os pais, as mulheres e o vestibular que se aproximava feito boleto vencido.

A tarde virou noite, e o Lucas logo arrumou outro esquema. Despediu-se e me deixou a sós com o amigo. Não tinha muita perspectiva do que fazer: a cidade era pequena, era quarta-feira, e a melhor ideia não demorou a chegar.

— Vamos pra zona!

— Bora. E de carro, ainda mais.

— Fechou.

Peguei o carro da coroa, já sóbrio, e me dirigi ao canto mais badalado da época: o Bar do Hiran. Não tinha muita coisa além de bebida e prostitutas, mas para nós, naquele momento, bastava. O problema não era o ambiente — era o preço. Conversei com o segurança, que nos deixou entrar e pagar na saída.

Lá dentro, não demorou para encontrarmos duas belas moças que muito nos encantaram os olhos. O preço? R$ 500 em 2019. Uma bagatela. Mas não tinha problema: estava com o cartão da mamãe.

— Chefia, tudo deu R$ 600. Crédito ou débito?

— Bota no crédito!

O cartão era fera, não falhava. Aquele pretinho do Banco do Brasil. Passa até na China — quanto mais na zona. O único problema é que, toda vez que passava, apitava uma notificação no celular da minha mãe.

A moça me deu um beijo no cangote e disparou:

— Seu telefone está tocando, amor.

Quando olhei o visor, estava lá, estampado: Mãe.

Mas puta merda, a velha não dorme? Já eram duas da madrugada e ela ainda estava acordada.

— Oh, José! Onde você está?

— Em casa, mãe.

— Seu mentiroso filho de uma puta. Onde você está?

— Calma, mãe. Vim só tomar uma cervejinha com os amigos. — E ainda não tinha avisado nem do carro.

— Que cerveja cara da porra é essa que custa R$ 600? Comprou o bar inteiro foi? Você foi no puteiro!

— É, mãe… e estou com a puta do lado.

A moça se estatelava de rir. Olhava para mim e não acreditava no que estava acontecendo. Cúmplice da minha desgraça, segurou meu rosto com as duas mãos e disse, baixinho:

— Agora você já pagou. Sou toda sua.

E fui para casa com ela. Sim, a minha casa. E ainda transei com ela na cama dos meus pais.

Deixo para uma próxima prosa a reação da minha mãe.

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