Caro leitor, pouco se fala da dureza que é escolher um tema para uma boa crônica. Quem se dá ao luxo de escrever para os olhos e a mente alheia caça dia e noite uma ideia que se deixe pegar. Hoje, dia triste e soturno no inverno paulistano, eu te encontrei a minha — ou melhor, ela me encontrou.
É quase noite e faz frio. Para um bom cidadão criado na costa dos pescadores desse país, dezessete graus é demais. Mas tudo tem solução: comprei um ar-condicionado quente e frio. Não importam as mazelas de São Pedro, eu estarei resguardado.
Modéstia à parte, são duas belas máquinas. A melhor marca do mercado. Transformam meu cortiço na zona sul num deserto no verão e numa geleira no inverno. Uma verdadeira benção para um pobre como eu — e é só de pobreza que sei falar com alguma propriedade, ainda que minha imaginação insista no contrário.
É a pobreza, aliás, que não nos deixa desfrutar sozinhos dela. Vem sempre acompanhada de outros trabalhadores, que sentem o frio e o calor com a mesma intensidade, da mais alta à mais baixa casta. Pois bem: a porteira do meu prédio tem um quê de sensualidade que guarda em mim um desejo divino de, quiçá, um dia explorar. E é certo que ela se ativa toda vez que vê minhas duas Ferraris chegando à portaria.
— Oh, meu amigo. No calor ou no frio, tá bem guardado agora, hein?
— Não é, Manu! Às vezes a gente se dá bem nessa vida.
— Pois é, rapaz… Tá um calorzão esses dias, né? — e, sozinha comigo na portaria, desabotoa um botão da blusa, deixando escapar a renda de um sutiã vermelho.
— Pois é! Mas logo chega o frio. Investi numa máquina melhor.
— Eu vi… Agora tá no ponto pra eu passar uma noite com você lá em cima, hein?
Eu me tremi todo. No alto dos meus 1,93m, cada canto do corpo sentiu aquelas palavras. O batom, o sutiã, o sorriso — coisas para as quais eu não deveria olhar com tanta veemência. No nervosismo, apenas ri e subi para o apartamento.
É verdade, eu reconheço: fiz tantas para chegar até aqui. Mas o perdão pediu seu preço, e quase me ponho a citar o maior poeta desse país.
Abusei da regra de três da vida, em que menos vale mais. Bastavam poucas palavras e realizaria meu sonho.
É uma pena que ainda guardasse no meu afeto a mulher que por mim não guardou igual afeto.