Megapixels

Sou do tempo em que, se você quisesse marcar um momento, você tirava um retrato, não uma foto. Por isso tenho certa dificuldade de assimilar o mundo de hoje. Não só parece, como, pra qualquer lado que você olhe, tem alguém com o celular apontado para frente, prestes a tirar um “retrato”. A diferença é que ninguém mais revela o retrato e o guarda na prateleira. Agora se guarda na nuvem. Uma prateleira invisível, sem poeira e sem cheiro.

Sou um leitor voraz. Encontrei um apego e uma segurança emocional enormes nas palavras, e não julgo se você não encontrou. Meu passeio de qualquer fim de semana e feriado é a livraria. Vou, leio de quinze a vinte sinopses, e meu desafio é sempre sair com apenas um título — ainda não consegui vencer. A minha preferida é a Martins Fontes da Paulista. Um lugar fenomenal. Vendedores qualificados para qualquer história que você precisar e um ambiente instigante, de fato.

Só que, ultimamente, ela vem sendo invadida pelo que eu chamo — copiando o Pondé — de “inteligentinhos”. E isso me irrita profundamente.

Estou na seção de livros de autoficção. Um deleite à moda francesa. Escolho três títulos na tentativa de comprar só um. Olho por cima do ombro e vejo dois rapazes e uma moça, separados entre si, que batem com o perfil. Observo mais um pouco e noto que os três, simultaneamente, estão tirando fotos de si e em si dentro da livraria.

Ok. Você pode fazer isso. Desde que o seu boomerang não inclua gente alheia como figurante do seu culto particular.

Acompanho de relance o comportamento deles. Tiravam fotos de livros esparsos pela livraria. Fotografavam passagens como se tivessem sido escolhidas por algoritmo. Não passavam mais de cinco minutos com cada título. Faziam alguns vídeos dos transeuntes e iam embora. Sem comprar nada, claro.

E aí vem a parte mais bonita do teatro. Eu, como um belo trouxa, vejo depois uma sequência de stories dessas pessoas e penso: “Olha só. Como são cultas. Passam horas na livraria e marcam apenas escritores clássicos.” Porra nenhuma. Mal leram a sinopse de Por uma moral ambígua, da Simone de Beauvoir, e saem por aí com a convicção de quem acabou de derrotar a ignorância do mundo e o machismo da sociedade. A livraria vira cenário. O livro vira adereço. E a opinião, às vezes, vem pronta, copiada de uma página qualquer com moldura de militância nas redes.

Na sociedade digital, a aparência tem uma fome insaciável. Não importa que você tenha conteúdo para debater, nem que formule suas próprias ideias. O importante é mostrar ao mundo o que você quer parecer — não o que você é. O argumento você pega emprestado. A pose, também.

E ainda não acabou. Você precisa provar um pouco de sucesso. Então abre as redes e vê milhares de vidas fantásticas em sequência. O primeiro story é de alguém se formando numa universidade cara. O segundo é de uma influencer nas Maldivas. O terceiro, do seu paquera saindo com outra pessoa enquanto você jura, para um amigo exausto, que está apaixonado.

Onde está a verdade, afinal?

Nietzsche dizia coisas pesadas sobre verdade e amizade, e eu não vou fingir que sei a resposta que me convém. Mas penso nisso sempre que cogito alguém para o cargo de amigo. A amizade não devia ser só plateia. Nem currículo. Nem vitrine.

No fim, eu continuei na minha tarefa insistente de escolher apenas um título. Eu falhei de novo, já te adianto. Mas, mais do que isso, eu consegui ser transeunte na foto de alguém. Vai ver você já me encontrou por lá em algum momento, recortado no fundo de um boomerang, com cara de quem está lendo o mundo errado. Você nunca vai saber.

Mas se eu posso te pedir uma coisa, já que me fotografaram sem me avisar: por favor, leia mais livros e tire menos fotos.

Grato.

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