Estou sentado na sala. À minha volta, colegas de idades próximas e alguns executivos que debatem fervorosamente o próprio ego, mas não é isso que quero explorar aqui hoje. Olho para a professora e vejo uma pessoa interessante, inteligente, com reconhecimento no mercado em que atua. Olho para o quadro e sinto pouco interesse no que está desenhado ali. Pouco valor. Olho para os lados e vejo um misto de sentimentos. Decido que é um bom momento para sentar num local vazio e escolher algumas palavras.
Sento numa cadeira terracota e abro meu e-mail com a feliz notícia de aprovação no doutorado. Peraí. Feliz? O que há de tão importante nesse sentimento? Foi só com isso que eu fui obrigado a decidir se era isso que eu queria, de fato. O que eu estou fazendo aqui? Isso é a melhor decisão para a minha vida e para a minha carreira? Eu tenho sempre duas respostas convincentes e é por isso que estou indeciso.
Eu não estou satisfeito com minhas decisões.
Sim, eu sei. Fui eu que escolhi estar aqui sentado neste momento. Mas nem tudo é perfeito e a gente muda de ideia com o tempo. Hoje olho para os lados e não me encontro em nada do que estou fazendo. Mas isso é um pré-requisito importante? Estão meus colegas interessados ou sou eu que estou procurando mais algumas agulhas num palheiro que já não interessa a mais ninguém?
Saio da sala para fugir desse conflito. Para fingir que tenho algo mais interessante a fazer com meu notebook caro na mão. Com a cara de preocupado que eu estava, era possível imaginar até que eu faço alguma coisa realmente importante nessa vida.
Aí vem uma sensação incômoda e, ao mesmo tempo, clara. Eu sou abençoado. Abençoado por poder navegar na incerteza e aprender com ela. Eu me olho como um navio daqueles tempos de expedição, preso numa tempestade no oceano, sem saber se a carta de navegação que recebeu é a correta ou se foi sabotada pelo inimigo. O pior é quando você percebe que quem pode ter sabotado sua carta foi você mesmo. Esqueçamos dos pais por um momento.
Só que eles voltam. No excesso de acolhimento ou na recusa, sempre teremos que levar os pais para a terapia. Opinam e é ruim; não opinam e parece pior. Eles estão abertos a qualquer coisa que eu proponha. Mas, mais que um privilégio, isso também é um jeito de me transformar em mártir. O único responsável pelo meu destino.
Eu não tenho resposta para as questões que levantei. Nada além da dúvida e de um sentimento de derrota me toma. Olho para o faxineiro e vejo alguém que talvez me odeie secretamente. Ele nunca teve a oportunidade de escolher fazer ou não um doutorado em uma determinada área. Foi-lhe oferecido o esfregão como única saída e ele o abraçou — ou precisou abraçar — para viver. E aqui estou eu, o burguesinho de merda, sofrendo e escrevendo com a minha dúvida.
Uma queimação na barriga aparece. Sei que mexi na vespa mais pontiaguda desse vespeiro, mas não tenho nada além disso para oferecer hoje. Fiz faculdade particular, mestrado particular e agora doutorado particular? Que vergonha.
Hoje não é humor, nem reflexão social, nem muito menos filosofia. É um ataque de lucidez contra mim mesmo que eu deposito nessas palavras, como quem economiza um colapso.
Vou fechar este computador e voltar para a sala de aula. Vai ver lá eu encontro as respostas que estou procurando. Acho que eu não sou nada além de um produto defeituoso do meio em que nasci.
Um estorvo.
Estou em dúvida se isso é uma crônica ou um desespero.