O dia foi estressante. Me olho no espelho e vejo um homem que não sabe como expressar o que sente — nem bem passaram das 14h e as olheiras já invadiram meu rosto como hóspedes que não foram convidados. Sou alto, tenho um pau pequeno e alguma coisa de errada aconteceu no caminho. Tomado por essa dor específica de existir sem um relacionamento a certa altura da vida, entendo que parte da minha história se explicou através da prostituição. E das putas, por consequência.
Não é novidade para mim. Perdi a virgindade com uma. Transei depois com várias. A vida sexual de um jovem com pouca habilidade e pouca exposição social pode ser complexa quando se rompem os portões que seguravam seus hormônios. Olho para o relógio digital que ganhei de presente de uma paquera que não deu em nada e decido que preciso fazer alguma coisa dessa vida. A faculdade está dominada, as contas em dia. Preciso transar.
Abro o site. Ali tem de toda sorte de mulheres, e claro, na cidade de São Paulo, onde toda sorte de coisa existe em abundância. Olho para várias e procuro aquela que mais me atrai. Encontro uma de nome de guerra sugestivo: Barbara Russo. Uma mulher de 1,80m, tatuada até o pescoço, olhos verdes e um longo cabelo loiro. Na descrição, ela oferece um baseado antes de cada programa. Não fumo faz tempo. A proposta me anima.
Mando mensagem para você, que demora uma hora para responder — com toda certeza, atendendo alguém igualmente incendiado em seus desejos. A abordagem é sempre a mesma, parece até que vocês combinam: fala seu nome, o bairro que atende, e o mais importante, quanto custa. Mil reais por uma hora. Fico decepcionado por exatos trinta segundos. Depois acerto para as 16h.
Não faltava muito. Tomo banho, me arrumo, passo três borrifadas de um Malbec próximo ao fim. Chamo o motorista de aplicativo e rezo para chegar a tempo. No carro, peço um favor: que você usasse roupas de academia no lugar da lingerie comum. Você responde que não teria problema e que escolheria a peça mais safada que tivesse. Sinto um calor no peito que não era bem de amor, mas não estava longe.
Chego ao seu flat em um bairro de luxo em São Paulo. A aparência do prédio não engana: se ali houvesse dez unidades, seriam sete prostitutas, dois turistas e um morador genuinamente confuso sobre onde foi parar. Luxuoso do pé direito à saída de emergência, com detalhes de ouro branco na bancada da portaria. O porteiro traja um terno de baixa qualidade e cabelo platinado recém-feito — e ali percebo que classe social é sempre uma questão de ângulo.
— Ma, chegou o José aqui, posso mandar subir?
“Ma”. Eu que pago mil reais para te conhecer me contento com seu pseudônimo. Enciumei, admito. Mas enciumei rápido e passei, porque de nada adiantaria.
No elevador, penso em como você seria pessoalmente, como me trataria, o que diria. O elevador abre. Sigo as placas metálicas que guiam os números dos apartamentos — eram muitos, e todos pareciam guardar algum segredo parecido com o meu. Toco a campainha.
Você está lá. Alta, loira, com os olhos verdes e levemente marejados. Linda como nas fotos e com uma presença que as fotos não conseguem segurar. Me recebe com um selinho e me pede para entrar.
Do momento em que pago o pix em diante — porque você pergunta logo no começo, e é justo que pergunte — existe um bipolar curioso: saber que acabei de gastar mil reais e saber que só me resta aproveitar. Decido me deixar romper pelo tempo.
Você acende um baseado. Fumamos abraçados na cama enquanto uma música toca baixinho na televisão. Você fala sobre amenidades — uma viagem que quer fazer, uma tatuagem nova no ombro — e eu ouço com uma atenção que não dispenso nem aos meus amigos mais próximos. Tem algo no seu jeito de falar que desafia qualquer script.
O que aconteceu depois, guardo para mim. Não por pudor, mas porque algumas coisas perdem quando viram palavras. Digo apenas que você disse que não costumava beijar seus clientes. E que beijou.
Depois, deitados, você saiu do script de vez.
— Hoje eu me aproveitei de você. Fazia tempo que não era tocada. Tocada e gozada. Tocada e acariciada. Tocada e desejada. Tocada e respeitada. Seu pau é pequeno, mas você é um gostoso. Sabe transar.
Olhei para o teto. Agradeci. Falei que gosto de mulheres e que não costumo diferenciá-las entre as que pago e as que não pago — o que é uma mentira gentil e também uma verdade imperfeita.
Tomei água, tomei banho. E ouvi de você o lado mais sombrio da sua profissão:
— Gato, vou te pedir para sair em cinco minutos porque o próximo está chegando, tá?
Saí de lá certo de que guardei aquela tarde para a vida. Mas você, não pode fazer isso.