Eu,

Eu sou apaixonado por mim mesmo. Veja, sou descendente da mais nobre família japonesa que imigrou para São Paulo! Comecei a vida em uma empresa de eletrônicos, também japonesa com fábrica aqui no Brasil. Cheguei lá e logo todos me exaltaram, ganhei um cartão ilimitado da American Express. Fui promovido a gerente em tempo recorde! Era o mais jovem com esse cargo. Agora, já ganhei muito dinheiro. Eu vou atrás do meu doutorado. Eu sou louco por mim.

Eu também sou apaixonada por mim mesma. Sabe onde eu nasci? Na favela do Vidigal no Rio de Janeiro. Lá, ninguém tinha perspectiva de nada. Coitada de mim, quando nasci, minha mãe rezava para que eu não virasse uma puta qualquer ou que acabasse cheia de drogas na cabeça e filhos na barriga. Olhe para mim hoje, comprei um Lexus de duzentos e cinquenta mil reais. À vista, meu bem. E sabe do melhor? Nem carteira de motorista eu tenho. Sou executiva de grandes empresas e disputada no mercado de trabalho. Eu sou louca por mim mesma.

Eu não acredito! Isso é uma balbúrdia. Eu nasci no Jardim Brasil, família pobre e favelada. Sabe quantos morriam no meu bairro todo mês? Quatro. Era um por semana. Quando era criança, minha mãe me colocou na igreja para tentar encenar a chance de eu não me envolver com drogas para uso e para venda. Minha expectativa de vida era só de vinte e três anos. Estou aqui. Vivo, rico. Acredito que agora, depois de construir um patrimônio bem razoável, vale a pena conquistar esse título de doutorado. Eu me adoro.

Eu acho que vocês só podem estar cegos! Cristo, nem terminaram de pagar o financiamento estudantil e já contam essa vantagem. Se tem algo que meus pais jamais tiveram que se preocupar na vida foi com estudos meus. Quando jovem, passei em primeiro lugar para o colégio militar. Depois, entrei para o ITA. Fui executivo de grandes companhias ao redor do mundo. Sempre na cadeira de marketing. Agora, estou cansado. Invisto em algumas companhias com capital próprio e faço esse doutorado findas minhas preocupações financeiras.

Vocês todos deveriam calar a boca e me pagar. Nasci pobre em São Bernardo e hoje possuo quatro empresas. Sou palestrante motivacional e dono de um escritório de advocacia societária renomado. Vou e volto todo dia, é uma questão de orgulho sobre as minhas origens. Agora, vim aqui para poder ter um título necessário para poder lecionar e falar tudo que aprendi.

E você? Tá fazendo o que aqui? Como um peixe fora d’água, respondo que não sei. Que quero ser professor. Não estranhamente, não recebi nenhuma resposta verbal. Olhares que antes estavam fixos em mim agora estão lentamente saindo com um riso irônico de superioridade na face. Depois, um deles me aborda. “Acho que isso aqui não faz sentido para você. Vai ganhar dinheiro, experiência. O que você quer ensinar?”

me odeio.

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