Eles chegaram e de pronto ficamos todos assustados. Assustados como um gato que repousa em sua calma no sofá quando avista um outro felino maior e mais bem-quisto que ele. Atracaram sem mais nem menos seus grandes pedaços de madeira em nossa areia. Nós sequer imaginávamos que um dia seria possível juntar tanta madeira e bambu numa obra só. Magnífico, mas intimidador.
Posso muito bem estar vivo hoje e contar essa história sobre o descobrimento de vossa terra em mil e quinhentos. Eu, como a história, não morro. Não sofro da morte. Meu colega índio parecia fascinado — com o falo ereto e um brilho no olhar que nunca vi. O que me assombrou foi que havia apenas homens naquela embarcação…
Os homens que nela habitavam não pareciam desse mundo. Vestidos em pedaços de pano que não sabíamos de onde vinham, com espadas na cintura que nunca vimos parecidas, e com um dialeto no mínimo suspeito. Se um deles me falasse “me dá sua mãe e vira de quatro”, eu acenaria com a mesma suplência de um bom dia. Mas tinham um item que reconhecemos parcialmente: um pedaço de papiro circundado em couro, com uma cruz no meio. Essa cruz eu conheço. Já passou por aqui um povo antes com ela. Rebanho de trouxas — acham que descobriram algo pela primeira vez.
Quando chegaram, me sentia o pato preto no meio dos brancos. Ao mesmo tempo que meu colega se excitava a cada portuga safado que descia da embarcação, outros empunhavam as lanças e ameaçavam de morte aquela gente. Outros não só ameaçaram, como a lançaram. Que baita obra a nossa.
Eu nunca tive medo daquela gente. Querem entrar? Que venham. O que tínhamos a esconder de tão valioso? Na prática vivíamos de forma quase rudimentar. As riquezas que nos roubaram, nós nem sabíamos que valiam tanto. Enquanto brincávamos de pau-brasil, Oxford já operava a pleno vapor.
Mas eu não morro. O tempo passou e os vi explorar nossa gente e nossa riqueza. Hoje, me assombra ir a uma escola e ver que as crianças se vestem de índios e não de portugas — eles que venceram, afinal. Fomos usurpados, usados, e caímos numa baita esparrela. O que podemos fazer além de usurpar alguns passaportes e cidadanias ao nosso povo? Estamos alimentando a cultura da derrota.
Veja, você deve ser menino novo perto de mim. Eu vi os portugas chegarem e zoarem tudo que nessa terra havia. Hoje os desgraçados têm coragem de xingar nossa gente lá na Europa, em nossa própria terra de origem. Depois disso, acompanhei a empolgação com uns ET’s que apareceram em Varginha. Aqueles, sim, eram gente boa. Chegaram querendo conhecer, ver o que tínhamos a oferecer — sem espada na cintura, sem cruz na mão.
O erro grande dos portugas foi investir sem conhecer. Quando se coloca dinheiro, primeiro se coloca conhecimento. Eles desconhecem essa expressão e deram all in nos tupiniquins. Os ET’s vieram cheirar o verde mato de perto. Nada mais justo. Então me explica: por que estamos com medo deles?
Seres extraterrestres que sejam, podem vir. Aqui, hoje, a pauta principal da redação é a Virgínia e o seu relacionamento com um boleiro.
Depois não digam que não avisei.