Eu tenho um amigo, que julgo ser um verdadeiro amigo. Mas não tenho certeza se ele guarda a mesma estima por mim. Enquanto me arrumo para assistir a algo parecido com um show de blues, começo a me recordar de todas as vezes que fui feliz com a presença dele. O homem, apesar de pouco bem-humorado e de guardar piadas complexas, se fazia presente em mim com constância.
Ajeito o cabelo e passo duas borrifadas do Malbec Black que mamãe não deixa faltar. O teatro do show fica na esquina; vou caminhando passo após passo, trajado num sapato marrom-escuro e uma jaqueta de tweed.
A chegada não tem nada de triunfal. O velho de 59 anos tem um problema sério com horário, então eu já tinha ciência de que chegaria primeiro — e isso não me incomoda em nada. Sento-me numa mesa para dois, peço um dry martini e aviso minha chegada pelo aplicativo de mensagem. Ele responde com um dedão.
Enquanto beberico o drink e aguardo, penso sobre nossa amizade. Conheci-o no trabalho, e lá temos colegas, não amigos como na escola. Eu saí da empresa depois de algum tempo e ele seguiu lá, mas isso não impediu que mantivéssemos contato frequente. Será que ele é meu amigo de fato? Será que não estou forçando uma relação que não existe? Forçar amizade é um martírio que não desejo carregar nesta vida. Não há o que fazer no curto prazo além de aguardá-lo.
Ele chega e se senta ao meu lado. Bate a mão na minha coxa e diz:
“Vamos pedir alguma bebida mais masculina para honrarmos um brinde antes que você peça uma batida de tutti-frutti.”
Gargalhei. Gargalhei muito. Pedimos a tentativa de um vinho. Caro como a desgraça de bebê-lo, mas ainda era um vinho — uma bebida que ele julga mais masculina.
Refletindo sobre isso agora, vejo que eu joguei meu tempo na fogueira. Não era importante saber se ele gostava de mim, mas que eu gosto dele, e isso é mais que suficiente para todos os fins. Apesar de absurdo, é uma verdade que preciso admitir.
Que diferença faz saber disso? Talvez nem ele saiba a resposta. Talvez ele saiba e diga que gosta. Talvez ele não goste, mas como precisa sair de casa para fugir da depressão, me utilize para esse fim. Mas aí eu retorno à pergunta de sempre: que diferença faz, se eu gosto dele, a priori?
Seguimos a noite entre várias bebericadas em taças de vinho. A noite foi realmente longa. O show se estendeu para além do horário previsto — o que foi excelente. Música de qualidade. Companhia de qualidade. Sabe como medi isso? Não precisamos falar incessantemente para que a presença de um seja agradável ao outro. Não estávamos ali buscando completude um no outro, mas completos em nós mesmos e juntos no mesmo ambiente.
Voltando para casa, já bêbado e arrependido do dinheiro que gastei, peço uma carona. Ele pergunta onde eu moro e fica um tanto reflexivo — do mesmo jeito que ficava quando o chefe lhe pedia algo. Olha pra mim e diz:
“Bicho, é na esquina. Não precisa de carona. Mas como cu de bêbado não tem dono, vou fazer essa graça pra você hoje.”
Aperto a mão dele ao fim do trajeto e deixamos marcado mais um encontro naquele bar.
Acho que, no fim, acabei com a resposta para a minha pergunta.