No cair da noite, tenho mais que um hábito. Mais que uma vontade e, muito mais que alguns pesadelos. É nesse emaranhado de pensamentos que define a estada noturna que noto que sempre tenho um companheiro comigo: o pé balançando. Ele está comigo há muito tempo. Nunca me abandonou.
Desde que tenho seis anos, ouço da minha mãe, quando a insônia batia e eu dormia com ela: “para de balançar esse pé, menino”. O pé e seu balanço não eram mais que um desafio ao sono, mas também um sintoma. Sintoma de quem, de manhã, tinha dificuldade de fazer amizades na escola; de quem sentia um pai ausente; de quem vivia com uma mãe ansiosa demais. Um sintoma de quem precisa de ajuda e não sabe pedir. Um arranhão vermelho no pulso. (E ninguém pergunta do arranhão, só manda parar.)
Uma lição que a vida ensina é que, mesmo quando você tem uma boa justificativa, os problemas aparecem. Minhas dificuldades de socializar e de controlar a ansiedade não retiraram de mim — nem amenizaram — os efeitos dos hormônios na adolescência. A vontade de tocar e a necessidade de ser tocado surgiram e estacionaram sem previsão de retirada. Eu implorava por arrumar uma parceira. Logo descobri que, além de aprender a socializar, eu ia precisar aprender a flertar.
Encontrei uma solução. Dois colegas do colégio viviam rodeados de mulheres e de amigos de outras escolas. Parecia um caminho a ser seguido. Comecei a observá-los em silêncio, inclusive nas redes sociais, tentando descobrir o que faziam para chegar até ali. Eles tinham um ativo que eu não tinha — e eu achava que precisava ter. Eles fumavam. Faziam parte de um seleto grupo de corajosos que decidiu tocar fogo em tabaco (e, às vezes, maconha) enrolado numa seda e colocar traqueia adentro. Eu já tinha o caminho. O da transgressão.
Comecei a atravessar a minha própria personalidade para conseguir chegar até eles. Eu não tinha muitos amigos, mas um deles os conhecia. Pedi que me apresentasse. Cheguei até eles e experimentei.
Botei o primeiro cigarro para dentro e tossi. Tossi como nunca. Quase botei duas almas para fora: a minha e a que eu estava inventando para caber naquele grupo. Logo depois, senti uma calmaria junto de um senso de pertencimento que me agradou demais. Eu era do grupo.
Para fazer parte por completo, comprei meu primeiro maço. Doze reais num maço de Dunhill. Peguei o contato daqueles colegas e começamos a sair com mais frequência. Começou fácil. Eu fumava quando queria. Depois, eu fumava quando minha mãe saía de casa. A coisa foi aumentando: cinco, dez, quinze cigarros… e, quando vi, o maço inteiro. Eu estava completamente viciado.
Estar viciado, por si só, já me incomodava bastante. No começo, tentei me enganar e dizer que poderia parar quando quisesse. Logo vi que tudo não passava de uma mentira bem contada pela minha cabeça.
O cigarro é maior que você em todos os sentidos. Você quer esconder de quem ama que você fuma, mas nunca consegue por muito tempo. Os pequenos cilindros que você carrega no bolso deixam marca onde são acesos. Os dentes amarelam, o cabelo pega cheiro, a mão muda.
Eu usava o cigarro para não me sentir só. A solidão e a tristeza encardem a alma e lavam a mente, deixando-a limpa e vazia ao mesmo tempo. Eu buscava uma forma de preencher o vazio, de não ficar sozinho e de não admitir para mim mesmo que precisava de duas ajudas. Uma social. Outra para parar de fumar. Eu havia arrumado um companheiro para cada hora do relógio. Na falta de alguém para conversar, um cigarro para acender.
Apesar de “pertencer”, eu me sentia sujo. Sujo de alma e de corpo. Quando o tempo virava, uma inflamação na garganta demorava o dobro para curar. A gastrite apareceu, o refluxo aumentou. Eu vivia com cheiro de cinzeiro e com camisas furadas de bituca. E vale dizer: continuei sem tocar ninguém e sem ser tocado. O cigarro me dava palco, mas não me dava abraço.
Um dia, fui fazer exames de rotina. Passei horas vendo homens e mulheres de jaleco indo e voltando com agulhas, seringas e uma cara de poucos amigos. As agulhas foram tranquilas. O problema foram os exames de imagem.
Ali, deitado na maca e com um frio de rachar os dentes, a médica olhou e disse: “hmm… quantos anos você tem? Tem algo estranho aqui. É melhor você ir atrás.” Pronto. Em uma frase, ela criou os piores seis meses da minha vida.
Depois eu corri atrás, fiz o que tinha que fazer e descobri que não era nada demais. Mas eu passava os dias pensando. Pensando que eu poderia ter arruinado anos à frente em troca de algumas tragadas. Que estúpido. Burro, burro, burro. O pior adjetivo, pra mim, era o único que cabia.
Não acabou aí.
Fui ao dentista mostrar meus dentes podres e amarelos. Ele me conhece desde a infância e não fez questão de esconder a reprovação. “Era uma criança tão fofa e inteligente. O que aconteceu?” Eu retruquei dizendo que também não sabia. Eu só sabia que precisava parar.
Toquei tudo no mato e parei. Isso mesmo, de uma só vez. Numa semana eu fumava vinte cigarros por dia; na outra, nada. Sofri, chorei e passei por maus bocados até conseguir parar de fato. E, dessa vez, consegui cedo. Sem recaídas.
Continuo com dificuldades sociais, mas ao menos estou sem o vício agora.