Sabe, Vô.
Sabe, hoje passei o dia inteiro escrevendo a minha dissertação de mestrado. É preciso dizer que se trata de um trabalho hercúleo, desses que consomem um bom tempo entre pesquisas, escrita, adequação acadêmica e todo tipo de exigência que uma banca de velhos professores pode acabar fazendo. Então, eis que olho para o telefone e vejo vinte notificações da minha mãe e um contato encaminhado. Era o do meu avô, e aquilo me deixou bastante sentido.
Era o aniversário de 96 anos do meu avô materno. Deus, 96 anos é muita coisa mesmo. Esse homem viu todos os títulos de Copa do Brasil enquanto eu não vi nenhum. Esteve vivo para ler nos jornais os efeitos do pós-Primeira Guerra e já era adulto quando estourou a Segunda. Viu surgir a máquina de escrever no Brasil e a chegada dos computadores. E ainda está aqui: lúcido, andante e falante. É realmente muita coisa. Mas, se tudo fosse flores, não haveria trabalho algum para os cronistas.
No meio das vinte mensagens de mamãe, estava o contato dele e um pedido claro: dá uma ligadinha para ele. Mas eu não liguei. Não por birra, nem por briga — na família, só tenho uma. Mas porque é difícil vê-lo daquele jeito. Comecei a recordar tudo o que ele atravessa num dia comum e a me perguntar se era um dia de felicidade ou de luta.
Olho para ele na minha mais distante memória. Vejo-o sentado numa cadeira de palha, verde e desbotada. Seu rosto não sobreviveu tão bem aos anos quanto a sua mente, e ele está ali, meio desajeitado. Olho para a sua barriga e vejo dois cortes enormes de uma cirurgia que fez para tentar se salvar de um acidente. Falo com ele, e ele me entende, mas a idade já lhe tomou da língua tudo o que ele poderia expressar, e não consigo conversar. Fico triste e me pergunto se era mesmo com ele que eu queria falar.
Por mais que esteja lúcido e vivo, sempre que falo com ele, ele me pede para morrer. Antigamente, eu lhe dizia que não era Deus e não tinha como ajudá-lo nessa tarefa, mas que era feliz e o visitaria até quando ele não estivesse mais ali; e que, quando morresse, eu iria ao seu túmulo. Mas ele seguia com a mesma conversa, fingindo não me ouvir.
Olho de novo para ele, para minha mãe e para a cuidadora. Elas estão lá, claro. Mas sinto que ninguém queria estar ali… quem quer cuidar de um idoso que não tem dinheiro? Quem quer dar atenção àquele que nada mais pode lhe prover? E, ainda assim, olho para ele e vejo um homem no maior apuro que se pode ter: a dor de acordar mais um dia e ter de pedir ajuda para urinar e se banhar.
Olho novamente para as duas que estão ali. Por mais que eu saiba do amor que minha mãe tem pelo pai, e de como sempre foi acolhedora com ele, sei o quanto ela queria que ele morresse. As despesas infinitas, as quedas constantes, o desentendimento que nunca acaba com as cuidadoras. É um fardo, e admito que deve ser difícil de carregar.
Vô, é o seu aniversário, mas não sei o que lhe dizer. O senhor me olha e algo me diz que não é a vida que quer comemorar, mas o saber que alguém lembrou do senhor e foi até lá. O senhor foi boêmio e gastou cada centavo com mulheres. Eu até pensei que fosse alcoólatra, mas nunca bebeu nem fumou. Vai ver assistiu muito ao Romário (ou o Romário assistiu ao senhor). Não sei.
Sei apenas que, daqui a alguns dias, irei à sua casa, vou ouvi-lo e vou sair de lá embriagado de vida outra vez. Uma bênção ou uma lamentação? Nunca vou saber. E se Deus um dia me deixar descobrir, não terei como lhe contar.
Um beijo, Vô. Feliz aniversário.