Envergonhado

Você olha para o varal.

Tem que estender aquela bacia de roupas —

ela repousa ali desde que o plástico era líquido,

e você não se importa.

Olha para a varanda

[ onde nada quer clarear ]

e vê só uma intenção, parada.

Na janela, o horizonte é um cinza

que pesa mais do que a cor.

O pedreiro marreta a própria raiva,

levanta os olhos e te encontra:

— o quê?

Lá, bem ao longe, na varanda do vizinho,

está aquela mulher.

Estende as roupas no varal.

A cueca: alinha, alisa, estende.

Abaixa. Mostra tudo.

Envergonhado

[ ou excitado? ]

você olha um pouco, discreto.

Desvia o olhar.

Olha de novo — e ela te encara pelo espelho.

Desculpa pelo olhar.

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