Paguei pra me livrar

A gente vive numa era em que, basicamente, todo mundo quer um pouco da sua atenção. Acordamos e o primeiro ato é olhar a tela do celular: rolamos as notificações atrás de alguém que queira falar conosco, de quantas curtidas a última foto rendeu no Instagram, de quem deu close na gente.

É confortável e, ao mesmo tempo, delirante pensar que vivemos assim. Sabemos de tudo e todos sabem de nós. O ato de comer virou espetáculo — só se começa a refeição depois da foto. Ir à academia virou celebração: treinou, tira foto e escreve na legenda “tá pago”.

Esses dias mesmo fiquei abismado com a minha existência, tão finita quanto efêmera: descobri que passo oito horas por semana só no Instagram. Cazzo! Bom leitor que sou, fiz a conta — ao final do mês, isso daria a leitura de quase 400 páginas. Um livraço.

— Pô, cara, ando preocupado com meu comportamento nas redes. Gasto tempo demais com isso. Oito horas por semana — confidenciei a um amigo.

— Oito horas? Por semana? Você está doido. Eu uso isso por dia — retrucou, gargalhando, sem nenhuma vergonha aparente.

Tudo bem, não é crime ficar rolando telas horas a fio. Mas será que é minimamente saudável? Existe algum benefício nisso? Suspeitei que não; e, para testar a hipótese, baixei um app que limita minhas horas nas redes e transforma a abstinência em jogo: 7 dias sem redes sociais.

Aderi. Paguei R$ 50,00 e garanti a mim mesmo uma licença vitalícia daquela miséria. Os primeiros dias pareciam infinitos. Como em todo vício, a gente meio que esqueceu o que fazer no tempo livre — esqueceu até como contemplar um ambiente. Sentado na sala de espera de um médico? Rola o reels. Aguardando o carro do aplicativo? Rola mais um pouco. Numa aula ruim? Vixe, melhor acompanhar o jogo do Palmeiras.

O primeiro dia foi uma lástima. Fiquei impaciente e, sempre que esquecia a promessa, o aplicativo me lembrava com um aviso nada simpático: você escolheu ficar 7 dias sem redes. Acostume-se.

A partir do terceiro dia, quase não sentia mais falta. Comecei a perceber que o celular tinha virado um adorno — voltara a ser o que era antigamente: um objeto que serve a mim, e não eu a ele.

No lugar de rolar a tela indefinidamente, passei a sentar e simplesmente respirar no ambiente em que estava. Espera longa pela frente? Um livro da Clarice. E, aos poucos, fui retomando uma presença que só tinha conhecido na infância.

Escrevo para você no Word, num computador. Logo no começo do desafio, vi o quanto as notificações aceleravam — e atrapalhavam — a minha escrita. Agora cada palavra vem à mente um instante antes de eu escrevê-la, e sinto que estou aqui, inteiro, e não com a cabeça voando em outra coisa.

E o outro? Bom, ele também deixou de mandar no meu cotidiano. Longe de dizer, com entusiasmo, que a opinião alheia não me importa mais; digo apenas que ela deixou de estar na palma da minha mão e na minha cabeça o tempo todo.

Antes eu proclamaria ao melhor amigo: aniversário da Maria hoje, viu que nem nos convidou? Agora eu nem lembraria — ela não é minha amiga — e tampouco veria as mil fotos da festa recompartilhadas nos stories dela, a festa para a qual não fui convidado.

O cotidiano volta a ser o foco. A atenção ao alheio e a validação que se espera dele saem de cena. Se eu começar a namorar com quem quer que seja hoje, só os mais próximos saberão; os ainda mais próximos é que conhecerão a pessoa. Meu poder de escolha aumentou.

Por mais frustrante que seja, tenho que admitir: paguei para me livrar do aplicativo que eu mesmo baixei lá atrás, em 2012. Pelos meus cálculos, devo um livraço a mim mesmo.

Volto a atenção para o PC e me sinto um velho. Ao menos, escrevo melhor para você.

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