Amizade frágil

Os domingos sempre foram um tanto sombrios para mim. Não é por nada: como o mesmo prato de comida mineira, tomo o mesmo café, durmo a tarde inteira e acordo com uma crise de solidão. A solução nem sempre é simples — moro sozinho, trabalho sozinho, estudo sozinho e passo cada fim de semana, adivinha, sozinho. Mas procuro nos livros o conforto que não encontro nas pessoas. Normalmente, sem pagar.

Calço um sapato velho e amortecido e sigo caminhando no traçar dos ventos frios, pela orelha do inverno, até a livraria. Ali me sinto acolhido. Conheço todos os vendedores, seus gostos literários, e me sinto admirado pelas prateleiras. Preciso ainda confessar minha tara por um autor: Albert Camus. Gênio francês que instiga cada olhar meu. Há um livro dele que ainda não li — suas cartas de amor trocadas com a amásia, suas cartas trocadas com outros grandes pensadores. Mas, para além do conteúdo, pensemos na carta.

O livro mais parece uma âncora, de tão pesado. Reúne apenas a correspondência selecionada, trocada com outras grandes mentes, e ainda assim cada página carrega um significado enorme. Antes de tudo, porém, carrega manutenção. Quanto custa manter um amigo querido? Um amor impossível? Quanto vale a solidão?

Esses dias resolvi apreciá-la cada vez mais — e ela retribuiu. Desliguei-me das redes e passei a lembrar apenas dos aniversários dos amigos mais próximos. Passaram-se alguns dias e nada, nenhuma lembrança; até que, lá pela segunda semana, me peguei pensando: “nossa, passou o aniversário do meu amigo de infância e eu nem lembrei”. Mais do que a falta de um “feliz aniversário, felicidades”, veio a pergunta: será que ele é mesmo meu amigo? Eu nem lembrei do aniversário dele.

Diante de uma foto que tiramos catorze anos atrás, lembrando de onde estávamos naquele instante, me peguei pensando no que aconteceu para chegarmos até aqui. Mudanças, relacionamentos, amizades em comum desfeitas, distância geográfica — ah, as razões são muitas. Mas nenhuma delas explica a leveza com que aquela amizade caiu.

Mandava mensagem nas redes sociais e ele não respondia. No aplicativo de mensagens, demorava semanas; aos poucos, também fui me distanciando. O sentimento bipolar entre “estou incomodando” e “quero manter essa amizade” me faz pensar que nada disso é de verdade — que as amizades dificilmente passam de um terreno alugado.

Certa vez, o indaguei.

— Poxa, você não me responde no Whats.

— Ah, mas a gente troca reels no Insta direto!

Pois é: a amizade não acabou. Mas a confiança, a proximidade e o afeto foram embora com as folhas de outono.

Quanto vale um amigo?

Deixe um comentário