Já não é a primeira vez que me incomodo com esse comentário. Nem com esse “amigo” que julgava estar protegido pela capa da sinceridade ao me dizer, sem qualquer filtro, que eu estaria “acabado”.
Assumo que pouco gostei da observação. A baixa autoestima unida a uma dependência forte da validação alheia me fazem pesar mais esse tipo de coisa que a média. No entanto, o melhor remédio para um falastrão é o silêncio respeitoso. Comecei a observá-lo de perto.
Vi um homem consumido pelas rédeas da ansiedade e do baixo amor-próprio. Um homem gordo, baixo, com todos os índices de saúde estourados. Seu cabelo acumulava caspa em quantidade impressionante. Talvez seja por isso que nos damos bem: os dois percebemos o peso das inseguranças.
Seu casamento revelava carência. Uma relação que parecia funcionar mais pela necessidade do que pelo amor, e ali estava ele, preso em suas próprias teias emocionais, tentando se afirmar diminuindo os outros.
Resta a paciência. Como o comprimento de uma estrada longa, ela acaba. Você ouve, ouve, sorri falsamente, tenta mudar de assunto. Mas volta e meia a pessoa tenta atacar seu bem-estar de novo, procurando reafirmar suas próprias fraquezas através da sua diminuição.
Em um desses momentos em que a paciência se fazia frágil, ele comentou novamente que eu estaria acabado. Dessa vez, na frente de amigos e de seu diretor de trabalho.
— Ah, ele deve ter rodado sem óleo também, igual você — exclamou.
— Não entendi. De quem está falando, barril de pólvora? — respondi com todo o ar que consegui puxar.
Nunca me senti tão bem e aliviado ao dar uma resposta como essa. Aquele momento merecia enquadramento em moldura dourada. A resposta chegou exata, no tempo certo, na frente de testemunhas. Por alguns segundos, ele teve que engolir o próprio incômodo.
Gostaria de acreditar que agora ele finalmente entendeu. Que aprendeu que um homem com tantos conflitos internos não deveria ter coragem de questionar a integridade de outro. Mas sei que não aprende assim. As pessoas raramente aprendem com uma boa resposta.
Fiquei tão entusiasmado com o momento que puxei um caderninho bem aqui no Uber para escrever essa crônica. O tempo que deveria ter levado meia hora levou cinco minutos, porque ainda estava vindo a adrenalina.
Já tenho a próxima engatilhada: “Rolha de poço”. Vou esperar a próxima oportunidade.