Mamãe sempre foi uma tremenda noveleira. Deitada na cama velha de madeira, apoiada em dois coxins de linho branco que se desgastavam com o tempo, ela desaparecia dentro daquele mundo de cores e intriga. Era uma mulher da casa — cozinhava, limpava, às vezes fofocava com a Dona Iraci na varanda — e à noite, puntualmente, assistia as novelas. Agora estou deitado ao seu lado. Na tela passa um clássico: Ti-Ti-Ti. A casa está quieta; meu pai longe trabalhando, minha irmã longe de casa. Era sempre assim. Apenas nós dois e a novela.
Na tela, duas mulheres — uma médica e uma advogada — estão sentadas numa cafeteria de shopping. Falam sobre seus dias, sobre as decisões que tomaram, sobre o quanto se sentiam realizadas e donas de si mesmas. Dona de sua própria vida. Com poder. Uma mulher assim não aceita silêncio de marido.
Mamãe fica vidrada na tela.
Depois que a cena termina, ela desvia o olhar para o teto. Seus olhos pairam lá, fixos e vazios, como se procurassem algo que nunca mais encontraria. Fico observando-a em silêncio. Aquele olhar a envelheceu dez anos em dois segundos.
— Mãe, quando você começou a trabalhar?
Ela pisca, como se acordasse de um transe. Demora alguns segundos para me responder.
— Ah, eu era novinha demais. Treze, quatorze anos. Seu avó tinha conta no Bradesco e um dia me levou até lá. — Ela ri, mas há algo amargo nesse riso. — Nunca vou esquecer a cara do gerente quando me viu. Falou na hora: “Quer ser menina Bradesco?” Como se fosse um privilégio.
— E você?
— Nem pensei. Aceitei na hora. Na quarta a gente foi, na segunda já estava com uniforme, aprendendo a mexer nos caixas. O banco era bom com a gente. Tenho até hoje uma caixa de maquiagem que eles distribuíam para as meninas. — Ela sorri, e pela primeira vez sinto que aquele sorriso é genuíno. — Era tão feliz lá.
O era me bate no peito.
— Você ficou lá até quando?
— Uns anos. Depois rodei em outros bancos que fecharam depois. Acabei parando em uma empresa de pneus. Fiquei coisa de dez anos lá, talvez mais. Gostava do trabalho, sabe? Tinha responsabilidade.
Há um tom diferente em sua voz agora — não é nostalgia, é ressentimento contido.
— Mas por que você saiu?
Ela respira fundo. Demora tanto tempo para responder que penso que não vai falar nada.
— O dono da empresa morreu. Os filhos assumiram e, bem… já sabe como é. Começou a desandar. Até que um dia fechou de vez.
— Hmm.
— Sua irmã mais velha já estava a caminho — ela continua, como se estivesse conversando consigo mesma. — Eu nem sabia direito. Tava tudo acontecendo muito rápido. Seu pai chegou para mim um dia e perguntou: “Como você quer fazer?”
— Como assim?
— O emprego que eu tinha arrumado não pagava muito. Era escolher entre trabalhar para pagar babá ou ficar em casa cuidando da menina. Sabe aquele momento em que você acha que tem escolha, mas na verdade não tem? — Ela me olha nos olhos pela primeira vez. Há lágrimas acumuladas ali, mas ela não deixa sair. — Era assim.
— O que você escolheu é óbvio — murmuro.
— É. Escolhi ficar. Seu pai disse que era só um tempo, que depois eu voltava quando as crianças crescessem um pouco. A gente sempre adia as coisas, né? Um tempo vira um ano. Um ano vira cinco. Cinco vira toda uma vida que você não esperava viver.
Ela desvia o olhar novamente. Desta vez para as mãos.
— Depois você sente o tempo passar, os anos levando embora sua capacidade, seus conhecimentos. O mundo lá fora continuava evoluindo e você aqui dentro ficando obsoleta. Quando você percebe que pode voltar, descobre que ninguém quer contratar uma mulher que ficou dez, quinze anos em casa. Aí desiste. Desiste mesmo.
A voz dela é quase um sussurro agora.
— Mãe, mas você sempre trabalhou, né? Não é como se…
— Não, filho. Parar “por um tempo” virou parar de verdade. E enquanto parava, a carreira se apagava. Aquilo que era para ser um acordo virou submissão. E depois virou apagamento mesmo.
Ela pega minha mão. Sua palma está fria.
— Você sabe o que dói mais? Não é nem ter parado de trabalhar. É descobrir, anos depois, que ninguém te pede desculpas por isso. Nem seu marido. Nem sua mãe. Nem você mesmo consegue se dar esse luxo de estar com raiva.
Fico em silêncio. Não sei o que dizer.
— Mas, mamãe, e a aposentadoria? Como ficou isso?
Ela solta minha mão e ri — aquele riso amargo de novo.
— Ah, filho. Eu tenho direito. Tá tudo na conta do seu pai. Justo no dia que eu tinha que ir no INSS indicar a conta para depositar, ele quis ir junto. Estranho, né?
— Por que você não solicita a mudança direto no banco? É por CPF, leva meia hora.
Ela fica me olhando. Vejo o conflito acontecer em tempo real no rosto dela — a mulher que começou no Bradesco aos treze anos, que teve responsabilidade, que trabalhou, batendo contra a mulher que virou dependente sem perceber.
— Vixe, filho. Já pensou a briga que teria aqui em casa?
Ela se deita novamente, puxa a manta até o queixo, e aponta para a tela.
— Aquiete-se e assista a novela comigo.
Fico sentado ali, observando o brilho da tela no rosto dela. Na novela, a médica e a advogada continuam suas vidas independentes, seguras, donas de si mesmas. Mamãe devora cada cena com uma fome que não consigo nomear.
Sigo suas instruções. Assisto a novela.
Mas a verdadeira ficção está deitada ao meu lado, renunciada e disfarçada de escolha.