Em crise com os Sopranos

Precisamos falar — um pouco mais — sobre Família Soprano. Lembro com nitidez de quando a série me foi recomendada e de como ela era “necessária”, “essencial”, “obrigatória”, e de todos esses adjetivos exagerados que usamos quando nos apaixonamos por uma obra. Duvidei. Vi a megalomania de perto e recuei, mas resolvi dar uma chance. E descobri que talvez aqueles amigos estivessem certos.

À primeira vista, parece um pastiche da obra mais relevante do gênero — O Poderoso Chefão. Embora haja um número apropriado de referências diretas e indiretas ao filme, suas naturezas são opostas por construção. O Poderoso Chefão trata de um problema de sucessão; Sopranos, de um problema de família. E isso é mais complicado do que parece.

Quando comecei a assistir, vivia me perguntando: qual é a perturbação inicial da série? Qual o fato gerador do conflito? Calibrado por Don Corleone, eu esperava um tiroteio, um assassinato, um sequestro — qualquer coisa que o Datena narraria à tarde na Record. Mas não. A perturbação inicial é a própria mente de Anthony Soprano e seus problemas familiares e profissionais, que não são poucos. A série começa no divã da Dra. Melfi e de lá segue até os últimos momentos, ao longo de sete anos.

Gravada entre 1999 e 2007, manteve o mesmo núcleo familiar e profissional do início ao fim. Por isso é possível acompanhar os personagens muito além do arco de cura ou de derrota que poderiam oferecer: eles amadurecem, sentem e são testados o tempo todo. E preciso reconhecer uma coisa — esse núcleo é mais parecido com o meu do que eu gostaria. Meu pai não é mafioso, mas somos de descendência italiana, e por aqui a história sempre seguiu a mesma trilha da família Soprano: a irmã é a filha modelo, que faz tudo “certinho”, e o filho é o problemático e depressivo, que não dá certo em nada. E isso são apenas os filhos.

A série também explora a fundo os distúrbios de personalidade. Anthony é descrito como sociopata nato, a mãe é narcisista, e a própria terapeuta chega a lhe dizer: “…você sabe do seu narcisismo…”. Mais do que um chefe do crime organizado que mata por qualquer bobagem, ele é um ser inteiro e dominador, que ataca a família com agressividade constante. Daí que a esposa seja omissa diante dos crimes que ele comete e da violência que pratica em casa. Isso não é arte: é o retrato de um núcleo familiar mais comum do que se admite.

A identificação foi quase imediata. Uma família italiana, disfuncional e cheia de contradições desde a fundação. Quem não conhece aquele parente que só se mete em rolo e ainda assim vai à igreja todo domingo? Ou o pai que exige que o filho seja o que ele sonhou, e não o que o filho quer ser? Ou, pior ainda, a esposa que aceita a dominação — e a reproduz — em troca de uma bolsa de grife e um carro importado?

É uma representação que ultrapassa o círculo estadunidense, ou mesmo o italiano. É um retrato da família. Nua e crua.

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