Sua promessa

– Quer uma água, café? Tá meio ofegante, está tudo bem?

– Olha, amor, aceito uma água e um café. Seria pedir muito?

– Claro que não, já preparo pra ti. Tem um restinho de cafezinho coado da manhã. Aceita?

– Claro. Expresso só me dá vontade de cagar.

– Ha, ha, ha. É verdade. Tomei um antes de pegar o voo pra cá e fiquei me segurando a viagem inteira.

– Enquanto você esquenta o café, vou tomar meu banho, pode ser? Ainda tenho que voltar pro trabalho.

– Claro, amor. Tá aqui sua toalhinha. Vê se não molha o banheiro todo igual da outra vez.

Pegou a toalha verde, ainda morna do sol, de fiapos duros e marcada pelo corrimão da sacada. Antes de entrar no banheiro, parou um instante diante da cadeira — a calcinha de renda preta dobrada ali, como se o esperasse — e só então foi. O box era pequeno, um cativeiro sem janela; o porta-xampu colava na porta de tão apertado. Mas tomou banho assim mesmo. Enquanto se secava, sentia o cheiro do café subindo e ouvia a moça cantarolando ao celular, e pensou que algumas coisas a gente leva sem pedir.

– Amor, tá pronto o café?

– Siiim. Vem pra cá.

Com o cabelo ainda molhado, voltou ao quarto onde ela estava. Os olhos passaram outra vez pela cadeira antes de pousarem nela.

– Amor, acerta meu dinheiro? – perguntou, meio impaciente.

– Claro, bem. Qual a chave Pix?

– É o meu telefone.

Ele fez o pagamento.

– Chegou aí?

– Chegou.

– Lembra da promessa que tu me fez da última vez?

– Não, amor. O quê?

– Você prometeu que ia me dar a sua calcinha.

– Eu?? Não lembro disso não – assustada e gargalhando.

– Sim. Você mesma. E vou mais longe: eu quero aquela ali – apontou para a calcinha de renda preta sobre a cadeira.

– Olha esse banheiro todo molhado de novo! Vou começar a te cobrar mais só por isso. Agora tenho que secar tudo – e já pegava uns panos, fechando a porta atrás de si.

Foi o tempo. Ele pegou a calcinha da cadeira, enfiou no bolso, apanhou a maleta e saiu. Entre o elevador e a recepção, o celular vibrou.

– Ficou chateado com o que falei do banheiro, amor? Saiu correndo. Não foi por mal não.

– Nada, gata. Fica tranquila.

– VOCÊ ROUBOU MINHA CALCINHA.

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