Esse tal de Tolstói

Zé do Peixe sempre fora homem alto, esbelto e dos cabelos castanhos como a melhor aquarela poderia representar. Homem simples e respeitoso, ficou viúvo cedo e por respeito a sua amada falava: “tive duas mulheres nessa vida: mamãe e Elizete. Todas duas já se foram para nunca mais voltar. Mulher nenhuma mais eu vou desejar” e seguia esse princípio de forma voraz e resistindo sempre à tentação das mulheres da vida que frequentavam a vila dos pescadores de Alagoas. Nessas voltas do mundo, ele dava umas voltas na vida e às vezes ia no sebo do centro da cidade para pescar uma ou outra promoção.

Era tarde de uma calorosa primavera e ele havia pescado pela manhã a quota que se desafiava toda semana. Então não lhe restava desejo maior que se deitar em sua rede e apreciar o mar com uma leitura na mão e um cachimbo no bico. Desejo esse tão grande que o fez sair de seu casebre rumo ao centro para buscar alguma coisa nova para ler. Já havia derretido todo seu estoque de Ernest Hemingway e Gabriel García Márquez e alguém havia lhe dito que tinha um tal de Tolstói que valia a leitura.

Pois calçou sua alpercata preta e gratinada pelo sol e apanhou uma boina marrom-escura que sempre lhe trazia sorte no mar e proteção pela terra; por respeito às moças, sempre abotoa sua camisa até o último botão e coloca um lenço no bolso de trás, para o caso de precisar secar as lágrimas de alguma delas. Rumou a pé mesmo até o centro; eram cinco quilômetros e chuviscava naquele momento. O sebo que gostava ficava no final do calçadão comercial de Alagoas e as intercorrências eram muitas.

O caminho que tomava era sempre à beira-mar. Gostava de parar e apreciar a formação das ondas que Deus proporcionara para aquele dia. A ondulação começava pequena como lã e vinha crescendo, crescendo até formar um bolo de enorme e atingir a crista com uma parte de sal e outra de água. Sabia que estava chegando pelo encurtamento da distância entre o Morro da Onça e a Igreja de Santo Antônio. Não demorou mais que quarenta minutos e já estava na beira do calçadão, com apenas mais um trecho para chegar ao sebo.

Tinha a mania de olhar para baixo enquanto andava. Sabe-se lá se isso era doença de coluna ou mal de autoestima. Fato é que levantar os olhos lhe arrependeu aos montes. Em sua frente, parecia uma caravana de afogados do Mar Báltico. Todos desesperados para vender a água que benta benzou seus abençoados.

            – Vamo comprar uma Veraneio, seu Zé! Sua mulher vai adorar.

            – Minha esposa já morreu fazem dez anos – falou brincando.

            – Pois então compre para o senhor, merece.

            – Não tenho interesse mesmo.

            – Tem certeza? Entra no carro, experimenta. Não vai se arrepender. Faz um test drive

            – Não tenho dinheiro – falou com seriedade.

E o vendedor virou-se para incomodar o cidadão que caminhava atrás dele.

Continuou caminhando e já estava quase na porta do sebo que separara trinta mil réis para comprar em livros! Com sorte, levaria até três. No caminho em que pensava o que gostaria de ler, outra intercorrência.

            – Seu Zé! Vamos comprar a quota desse resort. Vais poder levar sua mulher todo ano quatro vezes para outra praia. Descansar, aproveitar um pouco dessa vida.

Desta vez, mais rápido e categórico:

            – Não tenho dinheiro.

Zé do Peixe caminhou e chegou até o sebo que queria. Foi difícil, mas sempre foi um homem com dotes de calma e paciência. Lá dentro, desistiu de Liev Tolstói e comprou 3 livros de três autores que já desejava há muito conhecer: Balzac; Marx e Caio Prado Júnior.

Vai ver que nesse tal de capitalismo, a maior arma de libertação é a pobreza.

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