Pobre é foda

Existem coisas que partem do inexplicável. Você preferiria não saber, para não ter de se comparar, mas acaba comparando — e o pior é que sabe por quê. É o mais puro suco de pobreza. Analise junto comigo: já reparou como nunca é possível saber quando um rico corta o cabelo?

Estou no saguão do aeroporto da menor capital do país. Minúscula. E o aeroporto não se incomodou em copiar suas pequenas proporções. Espremido entre malas e outros pobres feito eu, à espera do voo para São Paulo, passo a mão no cabelo. Está grande, com caspa, sem viço.

Tentando alinhar o pouco de exuberância que restou, lembro-me dos meus 13 anos. Minha prima chegava em casa e dizia:

— Não vai cortar esse cabelo, não? Tá parecendo um capacete!

E eu enrolava mais uma ou duas semanas. Não era birra minha; era da família. Meu pai, aos 16, fizera amizade com um barbeiro, e quando o homem já criava cabelos brancos atrás do balcão, foi parar num salão de shopping. Em Aracaju só há dois — e cortar o cabelo em qualquer um deles custa alguns trocados a mais que na esquina. Não faltava opção; faltava vontade de romper o vínculo. Então a gente continuava indo.

Toda vez que chegava a hora, era a mesma amolação: “Pô, esse corte é muito caro”; “Demora demais”; “Dá pra aguentar mais um mês”. E enrolava, e enrolava. Em 2014, um corte ali custava R$ 50. Porra, hoje eu não pago isso — imagina naquela época.

Mas cortava. E o estranho é que sempre era notado. Na escola virava alvoroço — “Olha ele, cortou o cabelinho!” — e, entre os homens, vinha o elogio áspero de sempre: “Tirou da bunda, infeliz?”. Pobre corta o cabelo e o mundo inteiro vê.

Depois de alguns bons anos, já morando na maior capital da América Latina e circulando em ambientes que não são para o meu bico — nem ontem, nem hoje —, percebi que ali ninguém corta o cabelo. Parece combinado: “turma, vamos parar de cortar essa joça”.

Embriagado pela hipótese, comecei a desconfiar de vitaminas, minerais, algum procedimento caríssimo de salão paulistano. Chateado, perguntei a um amigo que mora numa cobertura no Jardim Paulista:

— Meu querido, que porra é essa que ninguém corta o cabelo aqui? Tá sempre igual. Nem demais, nem de menos.

— Aí tu é burrão, hein. Não é que não corta. Eu mesmo corto duas vezes por semana. Baratinho, R$ 500. Quer ir lá?

Caminho soturno até em casa pensando no momento em que vou me sentar no meu pequeno cortiço e contar essa história para você.

Pobre é foda.

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