Bomba

Passo pelo raio-x do aeroporto e encaro os olhares desconfiados de quem acha que guardo uma bomba na mala. Conheço o processo: o trabalho deles é desconfiar. Com as sobrancelhas franzidas e os lábios tensos, devolvo a quem olha um ar igualmente enfezado. Estou apreensivo — mesmo sabendo que não carrego bomba alguma. Apreensivo porque sei que volto agora para um lugar de onde nenhum ser humano jamais saiu de fato: o da sórdida solidão de existir e viver, ou de viver e existir.

Conheço esse lugar há mais tempo do que gostaria. Passei alguns dias na casa dos meus pais. Comi três, quatro quilos por dia, revi os familiares de quem um dia tive boas memórias e dei algumas risadas bem elaboradas. Agora, sentado no saguão de embarque, sei que me espera mais uma temporada de aflição na solidão e na tristeza de existir. É nesse vácuo — de existir sozinho e sozinho viver — que você aparece para mim.

Você não me faz bem. Cada palavra sua, que deveria ressoar como afeto ou ao menos como companhia silenciosa, ressoa com o ardor de quem não consegue existir no afeto do outro. A proximidade a devora por dentro e a faz lembrar de tudo que um dia te fez mal. Você me vê chegando e sabe que, para se apaixonar, basta um estalar de dedos. A paixão arde em suas veias como ácido no aço — e é difícil de cativar.

Se hoje você está amorosa e bem-humorada, semana que vem não deseja um bom dia. É duro demais te entender, e mais ainda te amar. Saber que qualquer dia desses eu vou abrir o aplicativo de mensagens e seu número não vai mais existir — isso machuca, isso devora o afeto de quem quer te ter ao lado.

Você aparece para mim agora — agora que sei que passarei longas horas distante de mim mesmo, repassando cada palavra que disse, tentando achar congruência entre elas. Já parou para pensar? Como deve ser difícil encontrar alguém. Ninguém nunca te quis pelo que você é; ninguém nunca te quis pelo que você tem a oferecer. E quando encontra, expulsa-o como quem se livra de um incômodo.

Suas palavras e mentiras me devastam. Fecho os olhos e tento dormir, mas estou cansado sem ter sono. Você não pode fazer parte da minha vida — e ainda assim é triste pensar em quanto eu queria isso.

Mas será que eu queria por pena de você ou por pena de mim?

Volto os olhos para a fileira da frente. Um casal se beija, entusiasmado por viajar pela primeira vez para a Europa. Talvez eu devesse pensar menos em você e procurar alguém que me queira e se importe de fato comigo. É uma pena que o amor escolha tão mal quem ama quem.

Deseja-me uma boa viagem, pois é a única coisa que posso buscar.

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