Sempre que venho até a minha cidade natal, noto como meus avós estão ficando cada vez mais idosos. Como existe uma escala de crescimento fetal, eles parecem ter a sua de depreciação parental. Um curto espaço de seis meses já basta para gerar tamanho desgaste em suas aparências e em suas mentes. Hoje fui visitar minha avó paterna: é Dia das Mães, e ela foi mãe de quatro e avó de cinco. Tinha que ir lá. E tinha que levar, pelo menos, dois presentes.
Não tem muito segredo, é uma lembrança — mas faz uma tremenda diferença na autoestima dela. Eu entrego um, meu pai entrega o outro. Ela agradece e, enquanto murmura cada sílaba lentamente, vejo que seu olho está vermelho e lacrimejando. Não sei se por emoção ou por debilidade — mas sei o que vi.
Percebo que ela tem dificuldade de abrir os presentes, mas calo. Puxa lentamente de um lado e nada. Puxa pelo outro e não alcança nada. Contudo, logo chega à conclusão de que, na verdade, não tem força. Meu pai olha e dispara:
— Ela ainda consegue abrir? — encarando a cuidadora.
Enquanto os vejo se debatendo em torno de uma sacola de papel com um perfume dentro, começo a sentir aquela velha sensação que há muito me acompanha. Uma náusea profunda, seguida de um enjoo que sai da boca do estômago, irradia para os olhos e dói na cabeça.
No fundo, não era com ela que eu estava preocupado — e muito menos com a atitude do meu pai. Eu sabia que estar ali, naquela posição, não era uma escolha: era uma luta eterna pela aceitação. Envelhecer não se recusa.
Volto a atenção para minha avó. Ela já está roncando de sono na cadeira. A conversa não a interessa, e ninguém mais tem paciência para conversar com ela. Entediada de existir, ela dorme. Não precisávamos de ninguém para ir ao banheiro, para trocar de roupa, para sair de casa; agora, até para tomar água, alguém olha nos olhos dela para ver se o copo não vai cair.
E, por algum motivo, não consigo culpá-la por dormir.