Era noite de maio na capital paulista. O caminho até o restaurante reservado era deserto e pouco povoado. As luzes amarelas das antigas lâmpadas dos postes enfeitavam a cena. Ao meu lado, está a mulher que aceitara sair comigo aquela noite. Em uma blusa preta e sem sutiã, fazia da nossa conversa uma coluna social. Recebeu-me com poucos beijos e aparente desinteresse. Não sabia se por uma necessidade do ofício ou pelo narciso.
Com a mão em minha coxa vamos até o restaurante. Seu carro era pequeno e o som era abafado, cheio de chiados. Não era ruim por si só, nem bom muito menos. Seguia o caminho dado pelo GPS e caia em alguns buracos. Não dirigia tão bem quanto falava.
Sentei-me na segunda mesa da esquerda para a direita. O sofá era pequeno e estreito, mas cabia a mim e uma cadeira na frente. Ela fora no banheiro e disse que já subia. Desconfiado de sua face, vi que não queria estar ali. Subiu as escadas e enquanto ouço o bater de seu salto em cada degrau de madeira, fico concentrado na audição. Uma respirada forte e um olhar estranho, ela puxa a cadeira e se senta a minha frente. Assim que se senta, franze cada canto de seus lábios e ali tive certeza do pensamento de outrora.
– Tá tudo bem? Te achei estranha hoje.
– Tá sim. Troquei o medicamento psicofármaco que tomo. Ainda tou me acostumando.
– Vai querer pedir alguma entrada?
– Vou. E você?
– Também.
Concentrado na minha missão de não a fazer gritar no restaurante, digo que pode escolher o que quisesse pois naquela noite eu cuidaria dela.
Escolheu, comemos, e a sobremesa veio. A massa mais seca que cimento queimado, mas não custou tanto. Aquele cannoli não tinha condição de servir sequer para uma pedra de tão duro que estava. Enquanto esperamos a conta, ela exclama.
– Eu não sei se isso aqui tá certo. Não sei mesmo – e me olha fixamente.
– Como assim, meu anjo. Nós não já conversamos sobre isso?
– É, mas eu não sei se você entendeu.
Senta-se no sofázinho ao meu lado e me beija. Carinhosamente beija meu nariz, o canto da minha boca e o canto da minha orelha. Deixa-me excitado e fala para irmos até a minha casa.
No caminho, vi que seria longo.
– Meu bem, acho que realmente não entendi. Como assim não acha que isso aqui tá certo? A gente já tinha acertado de separar seus papéis.
– É, mas você age de um jeito e fala de outro. Me chama de meu amor, quer que eu conheça sua mãe, quer viajar comigo e ao mesmo tempo diz que isso tudo é por uma amiga?
Fiquei em silêncio. Era irrefutável que esses eram convites de quem deseja uma namorada e não uma amiga para transar.
– Sério, é incrível o quanto você me pressiona por uma reciprocidade que eu não tenho. Você quer que eu te responda, você quer atenção, você quer presença, demonstração de afeto, mas eu não tenho isso pra te dar.
– Tá bom! Já entendi, para. Se você quer, a gente se afasta. Sem problemas.
– Não é sobre isso. É justamente pra isso não acontecer novamente.
Sentamo-nos no meu sofá e ela repete cada palavra daquele discurso. Sempre que falava meus olhos lacrimejam e quando vejo já estão encharcados. Ela, por outro lado, parecia pouco se importar. Cada vez que falava que estava pressionada, eu fungava e chorava mais um pouco.
– E esse choro é por quê? Tá vendo? Você não aprendeu a separar nada.
Quando acabou, já não me restavam mais argumentos. Vi que falar, ali, não serviria de muito. Vejo que seu rosto pouco imprime cada palavra que falou.
Lá para as tantas, pega a bolsa e diz que vai para casa.
– Não vai transar? A gente veio aqui só para isso.
– Você me fez brochar.