É noite e está frio em meu escritório. Num sábado à noite, tomo um gole de uma garrafa de um belo vinho tinto português enquanto escuto uma triste música estralando por entre meus dois ouvidos. Ainda inquieto e com a curiosidade maior do que consigo conter, olho para a casa de swing que dividi a bela esquina dos Jurupis comigo enquanto me embriago. Homens e mulheres chegam aos montes. Cada qual entusiasmado com seus dotes e cada um esperando conseguir algo. Enquanto os vejo indo e vindo, vejo pela minha varanda uma prostituta exclamando com a amiga:
– É foda. Ele é um babaca, mas preciso do dinheiro dele.
Não poderia ser sobre mim a conversa. Apesar de todos os defeitos que coleciono como um boleiro coleciona álbuns da copa, eu me lembro com exatidão de todas as mulheres que me deitei ao longo da minha vida. Não passaria pela avenida Paulista sem as reconhecer – será?
Ainda, um tanto perplexo por suas palavras, lembro de tantas mulheres Rameiras, Ilhoas ou Polacas que sustentaram relacionamentos que não tinham o menor interesse apenas pelo conforto financeiro que eles traziam. Lembro de mamãe e lembro de todas os episódios que passou. Apesar de não me recordar de nenhuma agressão física, mamãe passou por poucas e boas até sentar-se por entre os belos bancos de couro de nossa casa e me contar algumas prosas.
Ainda, sempre me recordei do quanto ela foi inglesa o suficiente para suportar tudo sem descontar no próximo a sua dor. Ah! Como eu odeio essas pessoas que descontam em outrem aquilo que as matam por dentro. Quanto falta de empatia com aquele que divide a mais pura tristeza de existir contigo! Pois é, mamãe é uma mulher de valor o suficiente para jamais sucumbir a cada uma dessas avarezas da vida. Mas, é de se admitir, que não foram muitas como ela. Apenas como exemplo, caro leitor, veja o que ouvi esses dias:
– É, ele teve que se esforçar.
Ouvi isso de um pobre ao falar que meu avô não teve como proporcionar o mesmo conforto que meu pai me deu. Mas, o que se passa por uma cabeça a ponto de ter que refletir tais palavras? Claro! Não é possível que alguém que nasceu com uma condição financeira minimamente confortável seja capaz de se esforçar. Caso ele não tenha sofrido, não é merecedor de nada. Por quê? Porque eu não fui, e ninguém tem que ser. Mas quanto egoísmo. Quanta falta de empatia pelo ser humano, que, novamente, repete a tristeza de existir junto a ti.
Admito que mais que me atingir, tais palavras me atravessaram no pensar em todas as vezes que fui enganado, todas as vezes que passei por maus bocados, todas as vezes que vi amigos da mesma pá financeira se esforçando e atingindo grandes objetivos, ou, ainda, quando vi que todos, possuíam uma coisa em comum: não esperavam. Não esperavam pelo outro para atingir os objetivos que outrora traçaram para si.
Papai, por exemplo, morou em um verdadeiro cortiço. Construiu tudo que tem a partir das suas mãos e cérebro. Jamais, como em outrora, olhou para o outro e duvidou da sua capacidade de construir. Jamais, como em um outras existências, pensou que tudo que alguém um dia fez fora apenas fruto de sua capacidade financeira ao nascer.
É também de se admirar o egoísmo. Ora, claro, se eu sou um pobre sem condição de proporcionar nada além do meu egoísmo e falta de cultura, eu vou atingir a ti diminuindo toda e qualquer realização que tenha realizado. O remédio para o outro sempre é a minha dor.
Olho para essas pessoas com o mesmo desprezo que Churchill olhava para os franceses que não lutavam por sua pátria em 1941. Ora, nada que advinha do esforço passado é válido. Apenas a rendição e o desprezo são necessários para a salvação! Ah, por quantas pedras alguém tem que passar para chegar até lá.
Agora, digito nesse teclado tudo que um dia pensei que jamais fosse capaz de concordar. Se você é pobre e acredita que todos que tem o que você quer ter são ladrões ou, ainda, não merecedores, você é um amargurado que está fadado a apenas admirar o bem-estar alheio por anos e anos além da sua própria existência. Perdoe-me, mas não sou capaz de admirar alguém que não pense em nada além da sua própria dor.