Escolha

Ter uma terapeuta não é completamente diferente de comprar um espelho que fala o dia inteiro: “Espelho, espelho meu, o que me dizes sobre o eu?” A resposta, bom, você quase nunca gosta. O espelho é cristalino, não mente. Mas você não acredita.

Faço sessões semanais. Melhor que Anthony Soprano, meus colegas de trabalho não me condenam por consultar o espelho e tentar me enxergar. Essa semana, falei com ela. Não estava muito a fim. Mas acender um cigarro na varanda e pensar que a queda não é suficiente para te matar já basta para pedir uma sessão.

— Espelho meu, o que dizes sobre o eu?

— Que precisa fazer escolhas melhores. — Uma lapada só.

Fazemos 35.000 delas por dia, segundo a IA do Google. A mais importante, delegamos. O outro, o outro, outro.

Eu me apaixonei por uma puta. Uma que não é bonita, que não era legal comigo. Que muito provavelmente fingia afeto por medo do abandono — até elas têm.

Tangenciei o assunto até não conseguir mais. Menti para mim mesmo ao mentir para ela. E segui.

Meu melhor amigo descobriu ontem.

Ele é meu amigo há mais tempo do que durou qualquer relação minha. Admitir que me apaixonei pela mulher da vida não é tarefa fácil nem para o mais rijo dos mafiosos.

O espelho disse:

— Você não acha que ele merece saber?

— Merecer, ele merece. Mas o que vai pensar de mim? Será que conta para alguém? Será que usa isso contra mim depois? Capaz até de parar de falar comigo.

— Tudo isso está na sua cabeça. Na fila da culpa, você está na centésima posição.

Mandei mensagem.

— Tá por aí, mala? — falei carinhosamente.

— Tô, já te ligo.

Olhei para o relógio e contei os minutos como um gavião conta os segundos para agarrar a presa.

— Cara, lembra daquela mina? Que eu te falei que não queria ver mais e etc?

— Claro, aquela era doida.

— Pois é, ela é puta.

Alguns segundos de silêncio separaram a minha expectativa da realidade. Aí ele riu, e riu muito. Não como deboche, mas como um detetive que descobre que era o próprio cachorro que comia as provas.

Por ter omitido o essencial, ele nunca tinha entendido. Não tinha entendido por que eu não dei continuidade. Não entendia o comportamento dela enquanto eu tentava traduzir aquilo para algo que ele pudesse aceitar.

Como poderia? Eu mesmo, até ali, não tinha entendido.

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