– Você deve estar bravo porque eu não quero ficar com você.
– Sabe, eu acho que é melhor você ir para a sua casa e eu para o meu hotel.
Desse momento em diante, eu abracei seus belos olhos verdes e senti pela última vez o que seriam seus braços por entre as minhas costelas. Vi seu cabelo saindo pelo canto dos meus olhos pela última vez.
Tomei a minha direita e segui com um hábito que mais tarde teria dificuldade de superar. Botei a trêmula mão sobre o meu bolso traseiro direito e puxei um maço de cigarros. Trouxe um para a boca e, com a mão de apoio, o acendi.
A primeira tragada desceu como um tapa e me fez dançar pelas ruas como se nada devesse e nada temesse. Era uma fria noite na capital federal e, distante de qualquer fantasia usual de poder, eu me sentia cada vez mais vulnerável.
Dei a segunda tragada e ela me disse que deveria olhar para trás. Com as pupilas dilatadas e um frio que entrava pela narina e escavava pela bacia, ouvia sua voz.
– José, José! Espera aí. Espera!
Olhei para trás, ainda aflito e distante de mim. Dei a terceira tragada nesse cigarro e vi que você corria até mim. Talvez preocupada com como eu iria voltar para casa. Talvez temendo o que eu iria falar de você. Ou, quem sabe, querendo um desfecho melhor para a história que acabamos de terminar.
Vi que vinha em minha direção, passo a passo, e virei-me de costas. Não queria saber de ti. Continuei caminhando na esperança de que a física trabalhasse e você não me alcançasse. Não esperei a tempo e nunca soube se aquilo seria apenas mais uma alucinação da minha cabeça ou se era você vindo até mim.
O cigarro em minha mão finalmente acabou e tomei o primeiro banco. Abri o app do aplicativo e peguei o primeiro motorista que aceitasse minha triste corrida de volta. Um Fiat Siena branco com cada pneu mais lustrado que uma careca recém enxaguada. Você me pergunta por que da cara aflita.
– O horror. Ela pega todo mundo um dia.
O horror de saber que teria que enfrentar meus sentimentos por você. Saber que sentir e falar o que se sente não são contemporâneos e que tudo que passava pela minha cabeça teria que ser digerido sozinho, junto com um cinzeiro e um cigarro.
Depois do horror, veio o terror. Não esperei por ti, nem achei que aquela seria a última vez que falaria contigo. O terror chegou quando te mandei uma mensagem no WhatsApp e você nunca respondeu. Mandei outra e você também não respondeu. O desespero veio quando te mandei mais uma dizendo que sabia que você já tinha visualizado.
– Sim, mas não quero mais falar com você. Não insista mais.
Um colega me aguardava para ir a um show. Disse que estava passando mal e que estava com ânsia de vômito. Pedi que fosse sem mim. Coitado, pensou que era físico.
Isso foi numa domingo e na segunda as aulas voltavam. Pouco a pouco, a ânsia de saber que encontraria com todas as suas antigas amigas — antes de você se mudar — começou a me consumir. Pensava no olhar de cada uma delas passando por mim. Eu também achava que elas eram minhas amigas.
Elas passaram em grupo ao meu lado. A caminho da lanchonete, pararam todas as quatro juntas ao elevador e me encararam.
– Oi! Como foram as férias?
E até anseei saber como estavam as ondas na casa de praia onde elas estavam juntas. Daí a pouco, o terror começou a se acumular. Se antes era a ânsia de saber se elas sabiam de algo, era agora lidar com o cotidiano de encontrá-las sabendo que elas sabem.
Depois do medo, veio a culpa. Saía todos os dias da escola e ia ao encontro da condução que me levava para casa. Olhava cada canto daquela cidade com o encanto de saber que um dia você passou ali comigo e hoje não me quer nem banhado a ouro.
A culpa me consumiu pouco a pouco. Engordei, fumei e bebi; qualquer saída era válida para não ter que lidar com esses sentimentos. Até pagava a alguém naquela época para que soubesse deles.
– José, eu não consigo mais te acessar. Vamos ter que começar a trabalhar o que aconteceu como trauma e não como experiência.
E a demiti. Pagar para ouvir asneiras e baboseiras? Coitada da minha antiga terapeuta. Apenas posso dizer que ela deveria saber lidar com esse tipo de coisa ao tratar com adolescentes.
Chorava aos litros e não focava em nada. Queria saber quando chegaria o dia em que passaria sem chorar por você. Quando chegaria o dia em que acordaria sem pensar em você. E quando chegaria o dia em que iria ao seu encontro.
O primeiro chegou. Como uma nota de violão, os sentimentos perdem a intensidade ao longo do tempo. O segundo chegou sem que eu tivesse percebido. Já o terceiro, bom, esse nunca chegou a lugar nenhum.
Já te vi algumas vezes pela cidade. Correndo no parque, passeando no shopping e comprando livros na minha livraria favorita. Todas as vezes que te vi, virei as costas para não ter que te reconhecer.
Talvez o José que se virou a ti em 2018 não queira, ainda, ter que ver a sua face novamente. Apesar de desejar.
Fim.