É sempre impressionante – e ao mesmo tempo angustiante – ver o quanto ser humano se troca. Da infância aos dias adultos o ser que vive dentro da mente (e que supostamente nunca saí), busca uma referência do lado de fora. Há algum tempo, eu decidi que daria um tempo da rua e das redes e tentaria viver ao máximo o analógico. No lugar do celular? Um livro. E acabei – mesmo sem saber -, aproveitando minha própria companhia.
Mas, nem sempre foi assim. Pensemos nós dois na infância. Acordamos, piscamos um pouco os olhos e já vamos de encontro a algum dos nossos cuidadores – e já estamos trocando a companhia com alguém. Seguimos da primeira refeição e vamos até a escola, lugar onde tradicionalmente (ou espera-se isso) façamos amigos.
Com um pouco de sorte, a vida segue bem e chegamos até a adolescência. O misto de querer experimentar alguns prazeres de adultos e ter a maturidade de uma criança, nos fazem vivenciar, pela primeira vez (talvez), a solidão. Os sentimentos afloram, os grupos se formam e, mais hora ou menos hora, você terá uma crise de identidade e testemunhará sua própria presença.
Comigo as coisas não foram como eu espero que tenham sido para você. Desde a infância, era obrigado a visitar a “tia” da escola. A tia era uma psicóloga que era acionada sempre que algum aluno apresentava um comportamento adverso. Sentar a porrada no amiguinho, xingar as colegas de nomes inapropriados ou chamar alguém pela cor da pele eram pautas comuns para uma criança dos anos 2000. Comigo, foi um pouco pior. Eu não chafurdei a cara de ninguém, nem xinguei ninguém. Mas, não queria socializar.
O intervalo chegava e alguns meninos já pegavam a bola de futebol que ficava no canto da sala e iam para a quadra. Eu olhava, mas pouco me interessava. Outros, pegavam um tabuleiro e iam jogar algo parecido com xadrez – o que também me despertava pouco interesse. As meninas pegavam uma revista capricho e iam juntas ao banco do parque. E eu? Eu pegava um livro (já furtado do meu pai) e me sentava sozinho, no canto da sala ou do lado de fora.
Por algum motivo, isso me inspirava uma paz enorme. As relações com os colegas masculinos da classe me inspiravam certo tipo de repulsa. As conversas sempre soavam um tanto agressivas e não me inspiravam confiança. Com as meninas, por sua vez, sentia que havia um limite muito claro sobre o que elas conversavam na minha frente e quando estavam entre elas. E aos poucos me afastei.
Na adolescência, como eu mesmo narrei, tive minhas crises. Apesar de por fora ser o macho alfa que usava drogas e que se sentia devidamente socializado, estava tão sozinho quanto pudesse imaginar. Os amigos, eram algum tipo de aproximação por interesse. Aos poucos, noto que, inclusive eu, somente não queria estar sozinho. Mas, não necessariamente queria estar ali. Queria não estar comigo mesmo.
É nítido que esse é um comportamento que guarda uma consequência enorme. Ficar sozinho é ótimo, mas vicia. Estar com pessoas que não gostam de você só para não estar sozinho, adoece.
A minha dificuldade com relações foi ficando cada vez mais nítida. Pré-adolescentes do ensino fundamental já estavam perdendo sua virgindade pelo beijo e muitos dos meus colegas de idade já perdiam a virgindade pelo sexo. E eu? Continuava sem pegar ninguém. Aos poucos isso deixou de ser um detalhe para um problema. Associando grande parte da minha validação pessoal a atingir esse objetivo.
É claro que a historinha que te contei sobre mim até agora é triste. Mas, ela ainda pode piorar bastante.
Conquistar uma garota e levá-la para a cama para perder a virgindade da maneira “comum” parecia algo cada vez mais distante. Simplesmente parecia que não era para mim. As pessoas falavam disso com uma simplicidade e leveza que parecia não me caber. Eu não compreendia e me envergonhava por isso. A solução apareceu de maneira simplória – e rápida.
Na esquina de casa operava um prostíbulo. Comecei a observar o vai e vem de uma série de garotas. Apesar de ter pouca habilidade social, hormônios não me faltavam e todas me deixavam em pé. Um dia, perguntei pro segurança que tava na porta quanto era. Ele me olhou e me respondeu de forma clara: “quem dá o preço é a dama. Mas vem com uns quinhentos cruzeiros que você se dá bem”. Poxa vida, eu não sei de onde tiraria quinhentos cruzeiros tão fácil assim hoje, quanto mais naquela época.
A história de como eu arranjei esse dinheiro fica para outro dia. Contudo, eu arranjei – e fui até lá. Junto com dois amigos, a dinâmica logo se impôs e três moças sentaram junto conosco na mesa. Escolhi uma e fui para o quarto.
Daí em diante esse dia deixa de ser importante e o presente se faz melhor.
Eu sabia que esse caminho “não era certo”. Certo em termos de sociedade. Se todo mundo estava arrumando uma bela moça na escola para se relacionar, por que eu não conseguiria? Essa pergunta ecoou por mim durante vários e vários dias. Claramente não tive resposta. E não tenho até hoje.
Fato é, que comecei a colocar grande parte da minha validação afetiva nessas garotas da vida. Olhava para elas e dizia que apenas queria o sexo, que sabia que dali não saia nada; mas, aos poucos, comecei a notar em mim mesmo uma dinâmica importante: era o impulso sexual que me levava e a esperança afetiva que me fazia ficar.
Pouco a pouco, comecei a deixar de me importar comigo mesmo e a me importar em como seria visto por elas. Vi em algum vídeo no youtube que muitas delas poderiam se apaixonar por seus clientes. Comecei a bisbilhotar esse tipo de conteúdo com cada vez mais frequência. Comecei a acreditar também quando várias delas me diziam que comigo era melhor. Ou que elas se sentiam mais confortáveis comigo. Acreditava que talvez estivesse no caminho certo.
Até o dia em que ficou mais que claro para mim que não estava mais na minha companhia, mas querendo a delas.
O desenrolar de uma história como essa é a mais extensa que uma crônica permite. Contudo, é nítido no olhar do homem a necessidade pelo amor e pela paixão. Seja de onde ela vier.