Lendo e bebendo!

A vida ficou um tanto chata depois que optei por tirar das mulheres o meu meio de validação afetiva para colocá-lo nos livros de literatura e, agora, história. Meus finais de semana saíram de alguma balbúrdia envolvendo mulheres de origem duvidosa para alguns passeios em livrarias na Paulista. Conheço todas na palma da mão, ao ponto de receber convite para trabalhar em uma delas. Hoje, sentado na minha predileta, ouço um jovem conversando com alguém que parecia seu irmão:

— Cara, vamo se entupir de livro e vinho. Essa guerra aí… A terceira guerra vai pipocar no mundo e a gente vai morrer lendo e bebendo!

Genial. Absolutamente genial a colocação das palavras, a combinação de elementos e, ainda, a capacidade de predizer um conflito. É sobre esse último ponto que não sei se guardo a mesma empatia pelo jovem literato. Mas não é absurdo dizer que ele pode estar certo. Olho para ele escolhendo um rótulo qualquer na prateleira de vinhos da livraria — porque hoje livraria vende vinho, café, quadrinho e até vela aromática — e penso: será que esse rapaz tem noção do que acabou de dizer?

Porque guerra, no sentido estrito, já temos. A pergunta real é se teremos uma que mereça o numeral. E na minha opinião, os ingredientes estão todos na bancada.

Uma guerra mundial não começa com um ataque aleatório a uma embarcação de outro país. Começa com uma conjuntura que faz da opção das armas a única na cabeça dos decisores. A formação de blocos econômicos, o fortalecimento de alianças, disputas territoriais e o enfraquecimento de instituições apaziguantes — tudo isso sugere que o jovem bebedor de uvas envelhecidas pode estar certo. Eu, sentado ali com meu café frio e um exemplar de segunda mão, torço para que esteja errado.

Em 1914, era comum um país disputar mercado com os outros na base da ocupação territorial. A velha necessidade quase feudal de possuir novos espaços econômicos era ativa e o imperialismo, vigente. Em 1939, a crise global de 1929 e a obsessão alemã pelo “espaço vital” foram o combustível de um incêndio que já tinha todas as condições para arder. Hoje, em 2026, abro o jornal e vejo o cabeça laranja falando sobre protecionismo industrial, guerra por estreitos oceânicos por onde passam navios carregando microprocessadores e uma corrida acelerada pelo melhor modelo de inteligência artificial. Mudam os objetos, permanece a disputa: no fundo, é sempre uma briga por demanda.

Na Primeira Guerra, a comunicação entre nações era lenta, e as alianças foram costuradas em gabinetes, sob o pretexto de uma corrida armamentista que ninguém admitia estar correndo. A Tríplice Entente de um lado, a Tríplice Aliança do outro, cada qual engordando seu efetivo militar como quem não quer nada. Na Segunda, Hitler não deu tempo de reação: ressentido pelo Tratado de Versalhes, fez da Polônia a maquete do que desejava para o mundo. Hoje, vemos a OTAN consolidada no eixo ocidental enquanto, no oriental, Rússia e China trocam afagos numa novela armamentista que já passou da segunda temporada – com honrosas menções ao Irã e a Coreia do Norte.

E há as guerras por procuração, que nunca saíram de moda. Para simplificar: imagine que eu sou o Lula e você, o Bolsonaro. Nos odiamos, mas preferimos nos odiar no quintal alheio. Assim fazem Estados Unidos e Rússia há décadas. A mais recente, na Ucrânia, onde a Rússia invade um terreno que julga ser seu e os Estados Unidos armam a resistência nesse mesmo terreno. Mas — você não perguntou — onde está a ONU?

Ninguém se importa. E essa talvez seja a constatação mais familiar de todas. A finada Liga das Nações não foi capaz de prever nem conter a ascensão nazista. Hitler, por desastroso e odioso que fosse, não se elegeu sozinho: pegou cada cláusula de Versalhes e, com uma caneta vermelha, riscou uma por uma até não sobrar nenhuma. A Liga assistiu de camarote. Ninguém se importou. Da mesma maneira, a ONU, desde a invasão ao Iraque em 2003, não conseguiu impor qualquer freio real. Os Estados Unidos atropelaram os conselheiros e fizeram o que entenderam. A dissolução prática desses organismos revela uma verdade desconfortável: eles são ineficazes em conter ânimos geopolíticos quando os ânimos pertencem a quem tem poder de veto.

Volto os olhos para o rapaz. Ele já escolheu o vinho — um tinto argentino, nada caro — e carrega debaixo do braço um livro que não consigo identificar daqui. Sai pela porta da livraria com o irmão, rindo de alguma coisa, absolutamente alheio à profundidade acidental do que disse.

Então, terá meu nobre colega de livraria razão em suas palavras?

Diante do exposto — e peço perdão pelo tom de parecer jurídico, vícios do ofício — eu diria que sim. Mas prefiro a versão dele: se for para o mundo acabar, que seja lendo e bebendo.

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