Não vai falar comigo?

A ressaca é realmente uma droga. Tomei todas ontem, enchi a cara de cachaça. Caso tenha tomado pouco, tomei uma garrafa de vinho e mais sete ou oito cervejas. Estava desolado por motivos que pretendo aprofundar em outra crônica. Mas, ainda, desolado. Olho para a geladeira e para o empoeirado disco da Billie Holiday e penso que devo repetir a dose de outrora. Tomei tudo isso e fui dormir arrebentado. Ainda bem que, ao menos, estava em casa. E sozinho.

Acordo no outro dia com uma dor de cabeça de matar o mais cristão dos cristãos e decido que tinha que fazer algo de útil. A manhã já estava perdida, mas ainda me restava a tarde para encontrar algo. Tomo uma refrescante ducha gelada e a dor de cabeça vai embora como os passarinhos em temporada de caça dos urubus. Penso: posso beber mais um pouco no almoço ou posso sossegar e tomar um café. Fiz os dois.

Almoço uma deliciosa calabresa do restaurante mineiro em pleno Domingo de Páscoa. Mamãe, além de me comprar alguns Malbecs, cozinhava uma mariscada de arrombar o estômago de qualquer católico. Longe de seus dotes culinários, decido que uma calabresa bem refogada na cebola cairia melhor. Como tudo como um cachorro come um pote de ração depois da caça a uma fêmea e sigo a tarde.

Não me restava mais nada além de ir tomar um café. Meu café é mais amargo que desilusão amorosa de puta e eu preferia encarar uma ida ao shopping que oferecer ao meu estômago aquele ácido. Ponho minhas mais bem passadas vestes e sigo à cafeteria que admiro no shopping. Na verdade, admiro a bela barista.

A cafeteria não tem muito de interessante além dos preços de saltar os olhos. E a barista. Maria. Que mulher bela e encantadora como o significado bíblico do seu nome. Vestida em uma Lycra preta e com o cabelo amarrado do pesado serviço que realiza dia após dia, ela me olha.

— Oi, José! Não vai falar comigo?

Já comecei a pensar na música do Sowetto. “Contigo ao meu lado eu vou voar. Em qualquer lugar desse Brasil. Pulei nos teus braços, me joguei. Voei, voooei.”

Depois de todos esses meses sem a ver, lembrou do meu nome. E ainda fez questão de que eu falasse com ela. Apenas respondi calorosamente:

— Oi, Maria! Quanto tempo.

Tomei meu café inteiro admirando seu passar pelo bar. Seus passos me faziam pensar na valsa que outro dia poderemos dançar.

Maria, pra sempre em meu coração.

Deixe um comentário