Cabia justa causa

O trabalho dignifica o homem. Essa, talvez, seja uma das frases que esteja há mais tempo guardada na sua mente. Como homem e brasileiro, nasci já em meio ao capitalismo e o afeto pelo dinheiro e pelas luxúrias mundanas sempre fizeram parte dos valores que cultivei. Certo ou errado, a pressão pelo dinheiro e pela carreira começaram a me consumir e decidi que deveria voltar a trabalhar.

Voltei para uma empresa onde já tinha sido estagiário e depois efetivo. O salário não é dos melhores, mas os projetos são desafiadores, as pessoas são inteligentes e os recebimentos variáveis por projeto acabam compensando. Na balança, vale a pena. Se fosse perfeito, eu não receberia para estar lá — pagaria.

Na primeira passagem, me irritei com a falta de profissionalismo e pedi desligamento. Na época, inventei que iria para outra empresa por um salário maior. Tinha vergonha de dizer que achava a empresa uma merda.

Dessa vez, saímos para almoçar, fizemos uma reunião privada, assumi a mentira e falei o que pensava — de forma mais delicada. Acertamos questões salariais e comecei no dia seguinte, animado por ter um salário caindo na conta todo mês. No entanto, a parte mais difícil de mudar uma empresa não são os recursos, mas as pessoas.

Quando saí pela primeira vez, mantive o contato com um colega mais velho. Saíamos com alguma frequência, conversávamos, eu gostava da presença dele. Nunca contei a verdade sobre a saída — mantive a mentira do salário maior quando ele perguntava. Não me orgulho disso, mas faz parte. Quando voltei, fiquei animado que retomaríamos o convívio pelo trabalho. Mas logo percebi uma nuvem de fumaça de onde ainda não sabia o foco do fogo.

Uma das primeiras coisas que fiz ao voltar foi comprar o OneDrive da empresa. Ele me disse:

— Precisamos ver como instalar ele no meu computador de casa.

— Sem problemas, vou lá rapidinho e instalo pro senhor — respondi, acreditando estar ajudando.

Senti que não fez uma cara muito bonita, mas esse nunca foi um atributo que ele pudesse oferecer. No outro dia, retomei o assunto:

— Eu vou lá instalar, só peço um bolinho de bacalhau! — comentei rindo.

— Ah lá, já quer ir lá em casa. Já quer bolinho de bacalhau — falou para outro colega.

— Ah, então vou te mandar um passo-a-passo e o senhor se vira — falei ainda brincando.

— É melhor — retrucou com certa veemência.

Entendi o recado. Passei o passo-a-passo. Mas não havia entendido ainda o que estava acontecendo.

Semanas depois, o chefe cismou que queria uma máquina de triturar papel. Falou que havia comprado e que chegaria no outro dia. Assenti com a cabeça e já ouvi:

— Ah lá, já coloca no teu job description aí: picotar papel.

Brincando, desenhei um pênis num papel dele com o seguinte recado: “José esteve aqui”.

Riu, num primeiro momento. Depois, tirou um retrato e mandou para o chefe:

— Olha lá, saio da mesa por um minuto e olha a situação. Cabia justa causa.

O chefe respondeu um emoji com os olhos revirados.

No fundo, achei que ele seria meu amigo. Mas no corporativo tem uma máxima que sempre falei: sua estrela pode brilhar, contanto que não brilhe mais que a minha.

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