Olha, nem sempre a gente quer mudar de corpo — a gente quer ser notado. Desde a adolescência, minha vida social resumiu-se a lanchar com meu irmão na escola do bairro e jogar League of Legends com mais dois ou três colegas até duas horas da manhã. Eu repetia essa dose semana após semana, e pouco tinha de incômodo nisso… até meus hormônios pubescentes começarem a correr pelas minhas veias como o Senna corria por Interlagos e me incitarem a buscar um pouco mais. Eu precisava mudar.
Eu olhava no espelho e sentia uma sensação estranha: magro demais; baixo demais; cabelo mal penteado demais. Era hora de mudar. Junto com meu irmão mais novo, me matriculei na Smart Fit da esquina de casa. Treino cinco vezes por semana e faço dieta regrada. Eu cheguei a contar as proteínas e carboidratos na mesma medida que contava os pecados: “Hoje bati três punhetas e comi 150g de arroz.” E comecei a me sentir extremamente bem com isso.
O tempo passou, o inverno caiu e a primavera chegou. Eu realmente tinha ficado bombadinho. Eu só não tinha noção do quanto as outras pessoas estavam a par disso. Ou melhor: do quanto estavam gostando disso. Convenhamos, a opinião do outro importa. Eis que tive alguma noção disso recentemente.
Durante o treino de inferiores, programei comer 150 com 150 — arroz e carne — e me masturbar uma vez só, para não perder energia. O que eu não programei foi um usuário falso no Instagram me mandar a seguinte mensagem:
— Oi, gostoso.
E eu respondi, vertendo lágrimas:
— Quem?
Instigado pelo elogio pouco disfarçado e pela necessidade de saber de onde teria vindo aquilo, achei que seria de bom tom pescar a origem desse IG. Tentei recuperar a senha e ver se aparecia o nome de alguém que eu conhecia no e-mail de troca. Nada. Tentei pelo telefone e a única pista que tive foi que o final era 50. Muito pouco adiantou.
Eu só tinha uma chance: o convencimento. Eu que sou o gostoso da história.
— De onde a gente se conhece?
— PUC. Você está solteiro?
— A gente já se falou por lá alguma vez na vida?
— Ah, uma vez só no final de 2024.
Cara, final de 2024 coincide com o fim da minha graduação. Tinha três mulheres e era todas feias. Será que foi a atendente da cafeteria?
— Mas você está solteiro? — ela insiste em saber.
— Não. Estou namorando e sou fiel.
— Ah, tudo bem. Não vou insistir. Mas não aceita marcar um café? Sem compromisso. Só quero te conhecer.
Repare que, em nenhum momento, o impostor entregou seu gênero através dos adjetivos. Será que é um homossexual? Nada a favor e tudo contra. Quero meu cu intacto.
— Não vou a um café com um convite de perfil fake.
— Um encontro e eu me revelo — insiste.
Ao mesmo tempo que coloca meu corpo em risco, coloca meu ego em festa. Eu estou perdido. Como devo mostrar para ele que me agrada o elogio, mas que não vou a um café com um desconhecido? Mesmo que seja uma mulher, o risco é alto. De decepção, vai que é uma gorda.
— Já que não aceita o meu pedido para tomar um café, posso te fazer um pedido?
— Depende… o que você quer?
— Uma foto sua sem camisa.
Uma foto minha sem camisa? Que ultraje! Uma tremenda falta de respeito e hombridade. Primeiro, você não se apresenta e se esconde atrás de um fake. Me chama de gostoso e depois quer uma foto minha sem camisa?
— Quantas disciplinas nós fizemos juntos na universidade?
— Ah, três ou quatro. Não foi muito.
— Manda a fotinho!!
— Não mando para fakes. Mostre quem é e eu mando.
— Olha, já vi que não vai ceder. E como eu não mostraria meu rosto por nada depois de tudo que falei… queria te fazer uma revelação. Quem sabe não muda de ideia sobre o nosso café.
— Pode falar.
— Terminei um relacionamento há seis meses, mais ou menos. As últimas duas relações que tive com ele foram pensando em você. Gozei e gritei muito…
(ainda pode ser um homem)
— Sério? Kkkk. Que escroto da sua parte.
— Não ri.
Eu tava quase tirando essa foto. Fui ao espelho do banheiro e voltei umas cinco ou seis vezes. Troquei de cueca, coloquei uma nova, fiquei de pau duro e tirei um ensaio completo do pirulito. Mas, não. Não vou me expor para um fake que pode ser, literalmente, qualquer pessoa mal-intencionada.
Deixei tudo engatilhado. Só faltava apertar o botão de enviar.
— Vai nesse café ou vai ficar só me enrolando?
Mais uma investida contra o meu espaço. É imprevisível demais e perigoso em igual grau. Alguém que nitidamente é despertado sexualmente por você e quer tantas fotos íntimas suas não pode ser do bem. Vou ter que bloquear.
Com o dedo tremendo e a visão turva, bloqueei mesmo.
Saí dali e fui para o espelho. Tirei mais algumas fotos. Comprei um suporte para celular e fiz o ensaio completo: costas, bíceps e ombro.
Pena que fica só no meu rolo de câmera.