Eu sou um homem de bem. E homem de bem não reclama — comunica. Reclamação é coisa de gente desocupada. Eu, por exemplo, sou ocupadíssimo: dor aqui, exame ali, fisioterapia três vezes por semana, neto querendo brincar e uma vida inteira de trabalho que ninguém vê, mas todo mundo usufrui.
Por isso mesmo eu precisava de um apartamento melhor. Achei um entre Moema e Indianópolis, coisa bacana. A prefeitura inventou uma tal de habitação social para gente como eu: não tem muito, mas merece morar direito. Comprei com o dinheirinho juntado ao longo da vida — e, no dia em que me mudei, descobri que tinha investido numa experiência antropológica.
O lugar é uma balbúrdia. E eu não sou de reclamar. Só não suporto bagunça.
Ontem, terça-feira, voltei da fisioterapia por volta de duas da tarde e encontrei uma coisa linda: uma fileira de chorume desenhada no corredor, do 806 até o elevador social — logo o social. O prédio tem elevador de serviço, mas parece que algumas pessoas têm alergia a dignidade.
Entrei no grupo do condomínio e, com educação, escrevi:
— Bom dia, pessoal. Tudo bem? Olha só: o lixo pingou o corredor inteiro entre o 806 e o elevador. Peço que a portaria verifique as câmeras. Obrigado.
Bom dia, sim. Educação não tem relógio. E anexei um vídeo, porque também não tenho vocação pra ser chamado de mentiroso por quem não sai de casa nem pra buscar encomenda.
Quase um poema. Pena que era sobre lixo.
Em seguida começou a procissão.
— Nossa, que exagero publicar o número do apartamento.
— Acontece, né.
— Quem é esse porco do 8º?
É aí que mora o grande problema: aqui as pessoas confundem expor com informar. O que esperavam? Que eu passasse por uma trilha de chorume como se fosse decoração? Que eu contemplasse em silêncio, igual obra de arte contemporânea?
Eu respondi com a elegância que me acompanha desde sempre:
— Não estou expondo ninguém. Estou informando para resolução. E, inclusive, isso é passível de multa conforme o regulamento, certo?
“Multa” é uma palavra interessante. Para alguns, soa como água benta: a alma acalma. Para outros, vira gasolina: a brasa aparece.
A portaria, que ainda é o último bastião de civilização, me mandou no privado:
“Bom dia, Sr. José. Vamos verificar e retornamos.”
Pronto. Ordem restaurada. Eu já me preparava para o resto do dia quando vi, no elevador, um aviso com letras de juízo final:
COMUNICADO: ELEIÇÃO PARA SÍNDICO — DIA 15
O grupo que não se mobiliza nem pra limpeza da piscina virou panela de pressão em cinco minutos.
— Precisamos de alguém que aguente a barra…
— Tem que ter experiência.
— Não tem segredo. Tem que ter tempo e saco pra lidar com esse pessoal chato daqui!
A Dona Josefina, do primeiro andar, me marcou. Sempre soube que ela queria chamar minha atenção por algum motivo, já que pelo tricô não conseguiu.
— @José — você devia se candidatar! Está sempre olhando pelo prédio com zelo.
Eu respondi do jeito mais humilde possível:
— Agradeço, mas não consigo ajudar dessa vez.
O grupo insistiu.
— Mas você é o mais organizado.
— Você é o que mais fala, faz alguma coisa agora.
Organizado eu sou. Eu separo lixo, eu separo gasto, eu separo camisa por tecido. Mas conduzir gente adulta que se ofende com “bom dia” é outra profissão. Fiz questão de esclarecer:
— Agradeço as palavras, mas não tenho interesse no cargo. Minha rotina está muito puxada.
Nos dias seguintes, o grupo virou horário eleitoral. Surgiram personagens: o conciliador que queria “harmonizar”, o investidor do aluguel por temporada que jurava que “movimenta o prédio”, e o candidato que achava justo ganhar quatro salários para administrar o caos.
Eu, naturalmente, precisei contribuir pelo bem comum:
— Seria importante que os candidatos tivessem noção de que precisamos de alguém com experiência e visão do todo. Obrigado.
Ninguém respondeu. Fiquei sentido por uns quinze minutos — o tempo de me lembrar que gratidão não paga condomínio.
Até que a administradora escreveu:
— Precisamos de um morador para presidir a assembleia. Serviço de cerca de quatro horas.
E a Dona Josefina, claro, me marcou de novo:
— @José — você pode fazer isso por nós, né?
Eu encarei a mensagem como quem encontra a pia cheia depois de um dia inteiro fora: não foi eu que sujei, mas sempre cai no meu colo.
Eu sou a favor de participação. Sempre fui. Só que justo naquele dia… veja bem… minha fisioterapia tinha aumentado. Eu tinha reunião sobre uma casa de repouso. Eu estava, enfim, ocupado com as urgências do corpo.
Respondi cordialmente:
— Pessoal, tenho um compromisso inadiável no dia. Desejo sorte e apoio total ao eleito. Obrigado.
“Apoio total” é uma expressão ampla. E, sim, um pouco hipócrita. Mas o que eu ia dizer? “Estou com preguiça”? Aí já seria falta de educação.
No dia seguinte alguém comentou que a lista de presença estava confusa e podia dar problema.
Eu alertei:
— Precisamos de mais organização. Desse jeito a eleição vira bagunça.
Veio a facada:
— E por que você não apareceu e fez você?
Eu ri. Por dentro, claro. Homem de bem não perde a classe no grupo.
As pessoas têm essa mania: acham que quem aponta um problema tem obrigação de resolver. Se eu apagasse todo fogo que eu vejo, não existia mais bombeiro. Eu sou o alarme. Eu aviso. Cada um com seu papel na sociedade.
Elegeram um síndico. Durou pouco até as reclamações de sempre voltarem. E ontem, terça-feira, o lixo do oitavo pingou de novo.
Entrei no grupo, com educação:
— Pessoal, bom dia. Com todo respeito…
É que eu não sou de reclamar. Mas, se eu vejo um problema, eu aponto. Alguém precisa fazer alguma coisa.