Metrópole

São 8h da manhã de uma nublada segunda-feira.

Acordo com o despertador do vizinho e noto meus pés balançando para cima e para baixo, ansiosos, sem pedir licença. O ar-condicionado no automático, vinte e quatro graus, combina com o céu carregado de cinza: um dia frio e escuro na capital paulistana, e eu preso na cama como se a gravidade tivesse aumentado.

Deixo o celular carregando no quarto e vou ao banheiro. O banho é o único empurrão do dia. Resolvo em menos de dez minutos — só para barbear. Vejo a cueca estendida no sofá e sigo para a cozinha. Passo café, frito dois ovos, deixo a mancha no fundo da panela herdada da minha avó. Como em pé, diante do espelho do micro-ondas. Olheiras na borda dos olhos, cabelo fazendo o que quer. Lá do quarto, o celular vibra. Vibra de novo. E de novo.

Corro até ele. As mensagens do meu chefe vêm em sequência, como se pisassem uma na outra:

“Escritório presencial hoje às 9:30”
“Espero você”
“Está tudo bem? Não me responde mais…”

Ensaio respostas que não envio. Digito “já estou indo”, apago. Digito “demissão” e fico com o dedo em cima do enviar, parado, como se o celular pesasse mais.

Sinto uma pena pequena dele. Ele me contratou quando eu era um universitário que não sabia de nada. Hoje eu sei um pouco mais, ganho melhor e não apareço há semanas. Mesmo assim, ele ainda espera.

Abro o guarda-roupa: camisas sociais demais, todas com algum problema. Puxo a primeira — axilas amareladas. A segunda — cor errada pro escritório. A terceira serve mais ou menos. Falta botão, a gola não fecha. Visto assim mesmo. Passo desodorante por baixo da camisa. Pego o Malbec Black que mamãe deixou antes de partir e dou duas borrifadas, como se perfume fosse coragem. Chapisco o cabelo e calço qualquer coisa que não seja Havaianas.

Suspiro fundo e vou até a porta. Mão na maçaneta. O celular vibra de novo.

“E aí, já saiu?”

Não respondo. Dou um passo curto e silencioso, encosto os dedos na maçaneta outra vez, e volto. Sento no sofá sujo, esburacado de cinzas, como se ele me puxasse de volta.

Preciso fazer alguma coisa nesses trinta e seis metros quadrados. Abro o notebook, vejo a tela de inicialização e fecho. Abro o e-mail na tentativa de inventar um home office e percebo que nada vai. Sem a rede da empresa, sou só um cara digitando.

Nova mensagem:

“Não dá pra ser remoto.”

Abro o app de corridas. Ainda daria tempo. Chamo o motorista, vejo “chega em cinco minutos” e cancelo. O aplicativo pede um motivo. Escolho “Outros” e guardo o real motivo para mim.

Lavo um copo limpo. Tomo outro banho. Nada alivia a sensação de ficar aqui dentro enquanto a cidade segue lá fora. O celular vibra como ligação. Minha mãe não liga a essa hora. É ele.

Deixo cair na caixa postal. Em seguida, outra mensagem:

“Isso é importante, atenda.”

Meu pé bate no chão e a cadeira acompanha, tremendo. As mãos suadas. A garganta seca. A tela acende de novo: um áudio.

“Se você não aparecer a coisa vai ficar feia pra você.”

Ensaio uma mensagem curta, educada. Vejo que ele está online. Esperando. Eu poderia pedir mais um dia remoto. Eu poderia pedir desculpa. Eu poderia dizer qualquer coisa. Não mando nada.

Tento cozinhar. Não tem muita coisa. Acho um pacote velho de macarrão. Pico um dente de alho, jogo no óleo. Fica ruim, mas dá pra comer.

Como em pé, de novo, diante do micro-ondas. No reflexo, a camisa desabotoada na gola, manchada, e eu mastigando. Pelo menos isso: eu funciono.

O celular vibra na mesa de madeira. Eu não olho na hora. Esse atraso de poucos segundos parece uma vitória.

Depois do almoço, deito sem tirar a roupa. Ainda com a ideia de que posso ir mais tarde, como se o dia aceitasse remendo.

Acordo com o celular vibrando no colchão ao lado. O nome do chefe na tela.

Atendo com voz de sono.

— Porra. De novo. — ele respira pesado. — Faz assim: não precisa vir mais. Já aprendi a resolver aqui sem você.

Eu abro a boca pra falar e não sai nada. Ele não espera.

A ligação cai. Três bipes curtos.

Fico sentado na cama com o celular na mão, olhando pra tela apagada como se ela ainda pudesse me dar instrução. Tiro a camisa. Depois o resto. Me enfio debaixo do lençol.

Olho por entre a veneziana. O vento passa por ela com um som fino. Lá fora, alguém passa na rua.

Meu pé volta a balançar. Mais forte do que de manhã.

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