Terapia

Eu tenho uma terapeuta. Sim, uma mulher com idade mais que suficiente para ser minha mãe, que aceitou o desafio de tratar minhas comorbidades mentais. A procurei há um ano. As camadas são imensas: relacionamentos, família, neurodivergências (ou convergências?) e uma mente inquieta demais. Ansiosa demais.

Seu trabalho fora reconhecido por uma paciente que ela não atende mais. Batendo o pé contra a mesa e nitidamente agitada, essa amiga fala que eu posso me beneficiar de um processo terapêutico. Ali, bem no meio de uma aula de álgebra linear, vi que ela teria razão. Antes que eu pedisse, ela já havia enviado o contato dessa profissional e ali vi um pouco de luz, um pouco de paz. Vamos testar.

Minha relação com as pessoas dessa profissão não começou ano passado. Aos sete, fui chamado pela terapeuta da escola. Eu não me interessava pela maioria das matérias e ficava a aula toda riscando a assinatura do meu nome nas bordas do caderno. As minhas professoras eram idiotas o suficiente para não entender o movimento autoafirmativo e a crise emocional que aquela criança passava. Conversei com ela, expus algumas situações. Senti-me constrangido por ter ido à psicóloga enquanto meus colegas aprendiam a desenhar algumas sílabas. De nada adiantou.

O tempo passou e eu vi que lidar com as minhas crises sozinho poderia ser uma boa ideia. Eu era novo, tinha nove anos, não tinha o que temer tanto (ou tinha?) e a presença dos terapeutas se esvaiu da minha vida. Lidei sozinho com a solidão, com a rejeição e com os problemas familiares que uma criança não deveria ter que enfrentar. Sozinho.

Eu senti o cheiro de um consultório só dez anos depois da primeira consulta. Ali estava eu, agora, com algumas crises acumuladas e uma dificuldade tremenda de autoaceitação. O outro sempre teve um papel atuante demais em mim. E naquele momento, ele era dominante. Entrei, contei a minha crise, a minha ansiedade e a minha necessidade de integrar um grupo. Fui para duas sessões. Até me senti acolhido, mas em merda fez conta. Eu lutei sozinho contra mais algumas marés.

O problema dessa merda toda é que essa maré nunca acaba em definitivo. E você vai tomando onda na cabeça, uma após a outra. Uma onda, duas ondas, três, quatro, e você já se vê na linha de um afogamento. A agonia e a angústia da solidão te jogam entre o batente de areia e a onda que te afoga, e você precisa fazer alguma coisa. Logo.

A minha última tentativa antes da atual foi no auge da adolescência. Eu te disse nas sílabas anteriores que esse afogamento nunca acaba. Eu já havia engolido tanta, mas tanta água, que agora eu precisava soltar. Soltei muita fumaça. Fumei muita maconha. Ofendi muita gente e tomei muita pinga. Não era uma questão de querer resolver meus problemas. Era uma questão de sofrer, mas saber que na sexta à noite eu esqueceria desse sofrimento, para no sábado engolir mais um pouco da salobra água das ondas.

Eu ficava irritado. Irritado por me sentir feio. Sentir-se feio é uma coisa; ter a certeza disso por não conseguir se relacionar sem pagar é outra pior. Eu tentei, te juro. Falei com algumas garotas, tentei alguns aplicativos, joguei alguns jogos. E perdi todos. Eu via meus amigos beijando, namorando, transando. E eu continuava na redoma de uma casa enorme e sozinho na maré.

Fumava dois ou três baseados por dia. Olhava para eles como um símbolo de popularidade e relaxamento. Fumei, fumei muito, e depois vi que só ganhei falsos amigos e crises de ansiedade.

Parei com isso tudo. As ondas baixaram de tamanho, mas eu continuava engolindo muita água.

Essa minha amiga que me indicou sua terapeuta mudou de ideia. Largou a terapia. Largou o bem-querer por si próprio. Mas, antes, trouxe a mim a possibilidade de olhar para a minha história.

Agora a terapia faz efeito. Continuo engolindo água, mas ela chega e faz a massagem de respiração torácica dela e eu expurgo alguns litros para fora. Ainda não joguei tudo que preciso para me desafogar. São muitos anos… Você deve imaginar como é difícil. Mas estou tentando.

Sua dedicação pelo meu tratamento é nítida. Sua percepção sobre o lento progresso que fazemos é verdadeira. Aproveite: antes eu não fazia progresso algum. Hoje, ao menos, caminho.

Saio da sala de aula para o meu quarto. O quarto em que fiz tantas sessões de terapia remota. E tenho a certeza de muitas mais.

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