Narciso é um personagem antigo da mitologia grega. Antigo, sim — mas hoje ele mora aqui do lado. Narcisos e narcisas se espalharam rua adentro, prédio adentro, tela adentro. Às vezes parecem evangélicos: entra um e saem três ou quatro.
Minha raiva começou no elevador.
No complexo vertical onde moro, são três elevadores sociais e dois de serviço. A ideia é espaçar, aliviar o corredor, transformar o deleite de esperar em algo breve — quase um favor. Acontece que o primeiro elevador de serviço tem um defeitozinho sereno: ele leva entre sete e dez segundos para dar partida. Fica ali parado, engasgado, regurgitando — como um paciente com refluxo — e depois, de repente, vai.
Enquanto ele faz a liturgia do engasgo, eu estou parado, pingando uma gota de suor de verão, observando meus companheiros de espera. Não os conheço, mas nenhum parece ter mais de trinta anos. Eles também não parecem conhecer o temperamento do nosso elevador. Gastam os segundos penteando o cabelo pela quinta vez, tirando a quarta foto, conversando uma baboseira qualquer. Lá pelo quinto segundo, todos já estão com a cara enfiada no celular — escolhendo qual imagem vai merecer existir no mundo.
Olho pra mim ali e me sinto um idiota. Um idiota manifesto, desses que nem escondem a própria condição. E então me pergunto o que uma pessoa precisa fazer para adorar a própria imagem em tamanha dimensão. Quando percebo, mudo a pergunta — talvez o erro seja meu. Talvez eu esteja com a autoestima baixa demais. Talvez eu esteja antipático demais. Mas no fundo penso outra coisa: idiotas são eles, que levam o tempo a cabo adorando a própria imagem na esperança de que o outro faça o mesmo.
Só que, dessa vez, o regurgitador demorou mais do que o usual. Por um momento eu achei que tinha dado defeito de verdade. Esse é o tipo de momento em que o moço do 610 já está no sexto reel e na quinta selfie. E aí vem o melhor: uma moradora puxa o telefone para o alto — sem autorização expressa — e filma a situação inteira como se estivesse narrando um desastre humanitário.
“Olha aí, gente. Tamo aqui preso no elevador e ninguém veio ajudar a gente ainda.”
A gente não estava preso. A gente estava esperando. Mas a espera, hoje, precisa render alguma coisa.
No fundo eu entendo de onde isso vem: é um desejo enorme de ser visto e validado. A rotina virou vitrine. Existe uma lógica em que o mais valioso não é viver — é provar que viveu. Mostre o café, a academia, o amor, o almoço. Se puder, coloque um item caro na foto. Se puder mais, viaje. Não importa se no fim do mês sobra dinheiro pra fatura: a aparência precisa estar firme. A performance não pode falhar. E isso, convenhamos, é uma doença.
E a doença não é nova. Quando eu era pequeno, ouvia meus pais comentando que meu padrinho ia trocar de carro porque o vizinho trocou. Que minha madrinha queria casa na praia porque a “amiga” comprou. A novidade não é a comparação — é a escala. Agora o vizinho tem o tamanho do mundo e o mundo cabe no bolso.
Comparação e entretenimento sempre fizeram parte da vida. Mas tirar cinco, seis selfies por dia, postar tudo o que faz e competir digitalmente… como é que isso virou normal?
Quando o elevador finalmente saiu do lugar, eu desci já sem ar. O ansioso que mora em mim grita por dentro se passa de dez segundos. E eu pensei: talvez seja esse o nosso retrato. Não é falta de tempo. É falta de silêncio. Falta de não ser visto. Falta de existir sem testemunha.
Narciso, meu filho, precisamos que você mostre o final da sua história.