Serviço porco

Já enojado com os ares e sentimentos da vida, balanço o pé para cima e para baixo na tentativa de encontrar algo a me ocupar. Levanto os olhos da cadeira do escritório e vejo que nada mais que um vento quente derruba meu humor pelas costas. Peraí, quente? Sim, quente. O ar-condicionado que, supostamente, deveria gelar o ambiente, estava deixando-o mais quente.

Olho para o controle e vejo que não havia erro de configuração, estava configurado para gelar mesmo. Chateado por já saber que começaria uma nova saga de prestadores de serviço na minha casa, desligo o mesmo e ligo para minha mãe.

— Porra, esse ar-condicionado deu problema novamente. Terceira vez em dois meses. Tem alguma cagada forte de instalação ou ele já veio com defeito.

— Vou te mandar as fotos da instalação, vê o que você encontra por aí.

Com o couro cabeludo já quente e coçando, aguardo as fotos. Teoricamente, era para ver se não tinha nada aparente. Uma tentativa mista de encontrar um culpado e de tentar sanar o problema. E de colocar a culpa em alguém, claro.

As fotos chegaram e vi que nelas estavam duas coisas que ainda não havia notado: a voltagem e a instalação elétrica dos aparelhos. Essa última parecia um mangueirão de porcos. Os fios todos emaranhados e o espelho da tomada coberto — acho que já para ninguém ver mesmo.

A foto era muito nítida, 220V era a voltagem correta da condensadora e das evaporadoras. Não é surpresa, para máquinas desse tamanho. E aí que me veio a pulga atrás da orelha.

— Por que sempre o instalador me pedia para desligar o disjuntor do ar por 5 minutos e depois ligar novamente? E outra, por que o disjuntor que desligava o ar era azul?

A resposta à primeira pergunta era óbvia: resetar o aparelho eletronicamente. A da segunda, nem tanto. Das duas, uma: ou o disjuntor tinha a indicação errada de voltagem, ou o ar-condicionado teria sido ligado em 110V.

Eu, me formei em economia. Não estudei eletrônica, nem engenharia, nem nada que tenha a mínima relação com isso. Mas fui eu quem descobriu o problema.

As antas que instalaram os meus equipamentos não se prestaram a fazer um teste de voltagem nas tomadas que estavam usando. Ainda, não se atentaram ao fato de que, caso ligassem em 220V direto, teriam queimado meus aparelhos na hora.

É claro que uma situação como essa destroça minha paciência e me tira uns bons anos de vida. Mas não é sobre um caso isolado que quero comentar. Só na minha casa, a marcenaria colocou uma escrivaninha com um metro de altura, a máquina de lavar não cabia no espaço desenhado, o micro-ondas não cabia junto com a tomada (!) e o ar-condicionado foi instalado com a voltagem errada.

E aí eu me pergunto: qual a chance de um país como esse ir para algum lugar?

A mão de obra carece de especialização mínima. O patrão odeia o empregado e a recíproca é verdadeira. E desse ódio mútuo não sai nada além de serviços porcos.

Eu também já tentei ser o simpático que oferece um café, água e um biscoitinho. E fui enrolado inúmeras vezes por prestadores que abusaram da minha boa vontade.

Sentado no sofá, parei a minha busca por um eletricista no Google para te escrever essa crônica.

Que você nunca precise dessa turma em sua casa.

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