Esses dias eu me lasquei todo mesmo. Já chorei as pitangas aqui sobre a instalação de qualidade limítrofe que efetuaram nos meus aparelhos de ar-condicionado. Um sucesso – para não falar nada negativo no dia de hoje (é a meta). A autorizada veio e recolheu tudo, e me deixou livre para apreciar uma casa verdadeiramente colonial: só no ventilador.
Bem na esteira da rua da minha casa, tem um termômetro de rua. Olho para ele e vejo que marcam 30 graus. Um deleite ao deitar-se no sofá e sentir cada gota de suor escorrendo da dobra de banha direita até afogar na cintura da bermuda. Lembro do ventilador, e logo o coloco na tomada.
Direto do canto superior esquerdo do meu armário, estava lá. Cheio de poeira como – como era de se esperar. Monto o eletrodoméstico e plugo na tomada da sala esperando o efeito dele chegar.
As primeiras ventiladas, vinham perfumadas. A poeira saia dele como a fumaça saí do escapamento de um carro velho. Ele começa a girar de um lado para o outro, mesmo sem olhos, parecia estar me encarando e querendo saber o que estava achando.
– E aí, tá bacana aí sujeito?
– Tá uma merda, pra ser sincero.
Cada giro parecia um maçarico. Eu sei que o único aparelho capaz de derrubar a temperatura de um ambiente é o ar-condicionado. Mas, esperava que um ventilador ajudasse. Cada lâmina dele parecia carregada de fogo. O seu funcionar era de maçarico.
– Pô mermão, não tem jeito de você fazer um ventinho gelado aí não?
– Cala boca que eu ainda sou sua melhor opção.
E era mesmo. Que mais eu poderia fazer? Comprei um portátil que atrasou a entrega. Os que a LG levou fora, não tem a menor previsão de voltar. Parece que o erro de voltagem – já relatado aqui, com louvor – gerou um vazamento no compressor e a peça vai demorar a chegar.
Pensei, ainda posso pagar um motel e ficar lá no ar-condicionado. Mas, vamos combinar, qual a chance de eu pegar um quarto de motel pra dormir e não contratar uma prostituta para me ajudar a pegar no sono?
Zero, não precisa nem pensar muito.
Então, cada noite nesse motel ia custa, pelo menos, mil reais. Melhor ficar no calor mesmo.
– Viu como eu sou sua melhor opção?
– Cala boca, porra.
– Acalme-se. Eu ainda posso parar de funcionar.
– Desculpa, amor.
Pensei, o melhor que eu posso fazer é mudar o foco. Mudar o foco do calor e tentar me concentrar em alguma outra atividade. A ideia era simples, vou pegar uma bebidinha, botar um disco da Billie Holiday para rodar e esperar na companhia de um livro.
Assim o fiz, peguei uma caixa de cervejas trincando de gelar e me sentei no sofá com a música Blue Moon no volume ambiente. A primeira golada parecia ter sido encomendada do céu, Deus, estava muito quente. Dei duas, três, quatro e quando vi já estava meio bebo.
Abri o livro, e tive a maior ironia da vida. Estudando o caso da JBS no Brasil, li que o Joesley Batista teria saído do Brasil um pouco antes de estourar a delação premiada. Pra onde? Uma casa nos alpes suíços. Um frio de lascar!
Eu não conseguia acreditar que até o livro parecia estar contra mim.
– Porra, meu irmão. Até o livro me faz sentir calor.
– E eu também.
– Cala sua boca.
O suor que antes saia apenas da dobra de banha direita, agora saia da esquerda também e parecia uma cachoeira.
– Eiiii, lá vou eu!
– Pô, vocês não acabam nunca?
– Enquanto tiver água nesse corpo, meu leitão, estamos aqui.
Que sacanagem.