Obrigado, Clarice

Bom, então eis que eu estou no meu sossego aparente de ler algum livro enquanto ouço o barulho dos caminhões da obra ao lado dando ré que recebo o contato de uma amiga querida me chamando para sair. Mais que sair: ela queria companhia para assistir à peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”. De pronto aceitei, Clarice não é coisa que se recuse nem que seja em folhetim, quanto mais no recém-inaugurado Teatro Moise Safra. Fui. Adorei, chorei e beijei.

A peça, em si, guarda uma lembrança mais especial ainda: vivida pela grande Beth Goulart. Filha de uma atriz e um ator, Beth Goulart traz Clarice no seu âmago desde a adolescência; há que se notar também a grande semelhança física da atriz com Clarice, deixando o clima por si só mais elegante e verossímil. Elogio o lado concreto, pois ele também é verdadeiro, mas o cerne todo está num texto que encanta e reproduz Clarice com um gênio incrível.

Na peça, é nítido que Clarice progride em seus temas da mesma forma que progrediu na sua obra: do estranhamento enorme sobre a vida, nos contos da adolescência, passando pelas questões do sistema social e econômico que vivemos, até chegar à sua relação com Deus.

O roteiro mostra uma Clarice que, de fato, nunca pertenceu a lugar algum. Nascida na Ucrânia e logo transportada a Pernambuco pela perseguição aos judeus na primeira metade do século 20, ela nunca teve um lugar para chamar de seu — nem mesmo no Brasil, onde nunca foi de um Estado só. É o tema central de uma obra que vai da mulher que não se reconhece e pensa ser personagem de si mesma até a Clarice que deixa isso de lado e questiona o criador. Contudo, a peça não é para todos.

Ler Clarice é para todos, assistir à sua peça, não. É triste, mas a crônica-resenha me exige um posicionamento e esse é o meu. Apesar de ser apresentada ao grande público e não ter grandes restrições de idade, é notável que entender as entrelinhas da peça não é tarefa para um leigo em Clarice. A obra toca em questões essenciais da existência e coloca a lupa de Lispector nisso; então, ter o mínimo conhecimento sobre ela e sua obra acaba sendo mais construtivo e legível para quem assiste. Eu mesmo dei-me o luxo de assistir à peça duas vezes.

Na primeira, fui com a amiga que não via há algum tempo. Na segunda, fui com um “date” (nome moderninho para um encontro). De cara, fiquei inebriado, poxa, um date clareado pela peça de Clarice Lispector era realmente uma ocasião especial. Levei de presente o livro “Água-Viva” e uma carta datilografada especial para ela que a fez chorar e borrar parte da maquiagem. Assistimos à peça abraçados e de mãos dadas. Ao final, demos um longo beijo. Ela tem 49 anos e eu 24, mas foi o melhor beijo que já dei nessa vida. Obrigado, Clarice.

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