É dia ensolarado de uma chuvosa segunda-feira. Não tenho grandes pretensões de acordar; o trabalho é só à tarde e no domingo entornei um vasilhame de vinho (ou até dois, não me lembro). Então, sonho, sonho com uma escavadeira e um caminhão dando ré e apitando para que se afastem dele. Sonho também com um mestre de obras gritando bem pertinho do meu ouvido, parecia até que eu era pedreiro:
– Oh, batatinha! Batata! Presta atenção meu amigo. Coloca essa estaca no lugar certo que a gente vai começar a bater já, já. Será que era pedir muito pelo amor de Deus?
Acontece que não conheço nenhum batatinha nem, tampouco, sou pedreiro. Então, o que será que está acontecendo? O que Freud me diria sobre esse sonho? Ele não me diria uma palavra sequer pois isso não é um sonho nem muito menos um pesadelo. É a obra que a há muitas come ao lado do meu pequeno apartamento.
Acordo com a visão um pouco embaçada e um fio de dor que passa pelo lado direito da minha cabeça. Seria a ressaca que me é devida ao vinho? Provavelmente, mas não faz mal algum, logo passa. Então, decido que vou até a padaria da esquina comprar um saco de pão francês e aproveito para comprar uma aspirina na farmácia.
Aqui, começo a descida pelo décimo sétimo andar. Olha, eu até hoje procuro no LinkedIn quem foi o engenheiro que projetou apenas dois elevadores para esse prédio inteiro! A descida é de ascensorista. Começo lá em cima e venho pingando igual bola de tênis de mesa pelo prédio inteiro. Paciência. Pego o rumo da portaria e dou bom dia para minha porteira favorita. Linda e charmosa, até esqueço que estava com dor de cabeça.
O caminho é curto e a vista já alcança a padaria no rumo que vai a venta. Não é longo, mas tenho que passar pela frente da obra. A calçada está entupida de lama e mais parece um campo de futebol do interior do que uma calçada. Piso com cuidado e tentando lembrar da aula de atrito na faculdade de engenharia. Pena que já faz muito tempo e escorrego com a bunda no chão. Agora, com a bunda suja de lama e de ressaca, volto pra casa. E sem pão. Nem aspirina.
Eu quero mesmo saber para quem eles vão vender tanto imóvel nessa porcaria de cidade! Parece-me que a cada esquina eles vão levantar um novo cativeiro: 25 metros quadrados e sem janela de ventilação. Afrancesaram essa cidade. Aí, Bandeirante, que tu fizeste por mim!