Autista e Borderline

Ao mesmo tempo que observo a minha geração, gosto de analisar a infância da anterior. E por um motivo simples: a pior geração é sempre a próxima. Então, achei que sentar e assistir a uma série consagrada dos anos 90 sobre questões familiares seria uma ideia promissora. Sento, rolo o catálogo e logo encontro uma mais que premiada: “Família Soprano”. As avaliações dos críticos são sempre meio espalhafatosas — “você não vai conseguir tirar os olhos da tela” —, mas ainda assim achei que valia o teste. E valeu.

Logo no começo, vemos uma família de quatro pessoas — um clássico dos anos 90 e 2000 ao redor do mundo. O ponto alto do enredo é que ele permanece o mesmo, mantendo o crescimento psicológico e físico dos personagens. Acontece que o filho mais novo passa o dia imerso no recém-lançado MacBook, vendo filmes do começo ao fim. Diante disso, em uma sessão de terapia, o pai desabafa: “não sei o que acontece com os jovens de hoje; passam o dia sentados em frente ao computador e à televisão”. E a terapeuta responde: “Os níveis de ansiedade aumentaram bastante nesta década. A alta exposição às telas coloca muita informação de uma só vez na mente das crianças, e o amadurecimento fica prejudicado. Um jovem de 26 hoje tem a mente de um de 21 da sua época”. Alguém além de mim achou alguma semelhança em tudo isso? Sério que fui só eu? Não é fisicamente possível acreditar nisso.

Então, fiquei com um questionamento aceso: será que hoje todo mundo tem um diagnóstico ou está todo mundo doente mesmo?

Não sei. Não sou médico e provavelmente nunca vou ser. Contudo, sentado com o meu MacBook em frente à televisão, fico analisando como tudo isso se conecta e faz sentido na minha cabeça. Desde os anos 90, a gente só aumentou a exposição às telas. Imagine o que a terapeuta falaria se visse um iPhone 17 bem na sua frente, com TikTok e Instagram. Por um lado, então, faz bastante sentido a tese de que estamos mais doentes, sim.

Por outro, pego-me analisando a evolução dos diagnósticos de ansiedade, autismo, depressão e todas essas modernidades antigas. Parece que, para onde quer que a gente olhe, todo mundo tem um problema. “Aí, amigo, não vai acreditar: fui diagnosticado com TAG (transtorno de ansiedade generalizada)”; ou, às vezes, ainda pior: “gente, tenho acesso à fila presencial porque meu filho é autista. Aqui está a carteirinha” — e geralmente em tom de briga.

Fico divagando nesses corredores vazios da universidade, pensando em como tudo isso mudou. Quando eu era criança, um colega autista mal conseguia se comunicar. Não tinha direito a fila preferencial nem a desconto em passagem aérea para lazer. Os ansiosos eram conhecidos como “agitados”, e só havia uma medicação disponível: Rivotril. A terapia, por sua vez, não era para muitos: ficava reservada aos doidos e às recém-paridas tomadas pela depressão. Então, como foi que a gente veio parar aqui desse jeito?

Eu gostaria de ter uma resposta mais formal para dar, mas já te disse que não sou médico. Ainda assim, penso que grande parte desses diagnósticos não é dado por um profissional. Hoje, com o ChatGPT e o YouTube bombando, todo mundo é médico, escritor, pedreiro e especialista em constelação familiar — e me parece que essa galera achou nas doenças mentais uma ilha para se deitar. E não parece querer sair. Quer um exemplo?

Hoje parece que todo mundo é narcisista. Digite essa palavra no YouTube e veja o boom de conteúdos. Às vezes, o mesmo criador grava o mesmo vídeo em dois ou três anos diferentes só para cumprir a demanda da audiência. Então, será que o número de narcisistas aumentou ou o número de ressentidos encontrou uma justificativa para o próprio ego?

Não sei dizer. Sei apenas que isso me parece o caminho mais fácil. O relacionamento não deu certo porque meu ex era narcisista — não porque eu o manipulava e mentia para deixá-lo em dúvida sobre a verdade. Ou então o relacionamento acabou porque eu não conseguia ceder entre lavar os pratos ou limpar o quarto, e não sirvo de empregada para ninguém. Ele deve ser borderline.

Eu deixo aqui a minha: sou autista e bipolar. Não falem comigo. Obrigado.

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