Copa!

Não sou de esquerda, muito menos de direita. Mas preciso confessar aqui meu mais profundo rancor por aquelas pessoas que um dia conseguiram politizar o uso da camisa da seleção brasileira. É Copa, e eu estou com vergonha de usar a minha.

A Copa do Mundo no Brasil não é um momento, é um evento. Somos os únicos pentacampeões do mundo, e essa camisa com cinco estrelas no peito pesa demais. É um deleite atravessar essa festa — e, incrivelmente, lembro de onde estava, que roupa trajava e com quem dividi as alegrias e as tristezas que já passamos com a seleção. Não é por nada, mas de 2014 pra cá o baque foi grande.

E foi em todos os sentidos — porque o que rachou dentro de campo rachou também o país. O 7×1 presenteado pelos alemães foi só o começo de um sofrimento que nos acompanha desde então. Os seis gols de saldo que o velho continente levou de nós naquela semifinal levantaram mais que um medo: levantaram uma crise que nunca passou. Lembro do silêncio na sala, a televisão ligada e ninguém com coragem de olhar pro outro — como se a gente já soubesse que aquilo não ia ficar só no futebol.

Não ficou. Em 2016, a crise saiu da telinha e foi pra rua. Levaram a Presidenta para o vinagre, e as ruas fervilhavam por uma revolução — às vezes de um jeito um tanto agressivo. Enquanto isso, nós, brasileiros, assistíamos a tudo por uma telinha de 32 polegadas, sem acreditar no que víamos. Foi a primeira vez que a camisa da seleção virou artefato político: vesti-la passou a significar um lado. Foi a primeira vez que tive vergonha de gostar do amarelo.

Como na vida, a crise política não se encerra com uma derrubada. Assim como em todo o mundo, a extrema-direita chegou ao Brasil e fechou aquele tempo em que dava pra discutir o país num único tom de voz. Foi ainda naquela época que as manifestações de um determinado político trocaram a comum jaqueta marrom de frio pelas passeatas que espalhavam ódio — agora com as cinco estrelas no peito.

Mas a Copa também é isso: é lembrar daquele seu familiar seboso. Aquele que vai ao banheiro no meio do jogo e, quando ouve um GOL!, vem correndo de lá pra cá com essa mão suja de sabe-se lá o quê e adentra o pote de M&M que a mamãe preparou para os meninos verem o jogo. A Copa é o pacto silencioso de fingir que não viu.

É ainda quando a gente se celebra como nação. Estamos ali, juntos, diante de outras dezenas de países — e o nosso melhor argumento vai ser político? Ai de ti, amarelinha. Que fizeram de ti em prol de si. Mas eu tenho fé que isso vai acabar – e não vai demorar.

Uma hora essa gente cansa de tomar garrafada na rua, de levar porrada de cassetete da polícia, e vai escolher outra camisa no armário. Que usem a da Argentina. Mas deixem a minha amarelinha em paz!

Amanhã é a estreia da seleção na Copa de 2026, e eu torço – e torço muito. Essa camisa que um dia vestiu o Rei Pelé, que deu a coroa a Romário e que conduziu o Fenômeno à maior história de superação que eu já vi no futebol vai, enfim, ter um sossego.

Agora, descanse a voz. Amanhã tem Brasil. E é por ele que você deve torcer.

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