Namorados

Sexta-feira, Dia dos Namorados, e os faróis dos carros disputam com a lua o direito de iluminar a avenida. Volto para casa de aplicativo depois de mais um dia de serviço, e no semáforo a motorista — bonita, aliás — suspira para o para-brisa: “É, moço, a pista tá salgada mesmo. Até o motel eu já paguei e vou passar mais um Dia dos Namorados solteira.”

Não conheço a vida amorosa pregressa dessa mulher. Mas conheço por dentro a vida de quem passa a data sozinho — passei todas. Cultivei duas paixões, ambas mal-sucedidas, e o terror das datas comemorativas sempre me pega de relance, como um espelho malvado que damos a nós mesmos de presente, enquanto presenteamos os outros com retratos retocados por Inteligência Artificial.

Desconfio que a pergunta que ela faz a si mesma, no escuro do carro, é a mesma que tantas fazem: por que ninguém me quer? Ou pior: por que ninguém quis ficar?

Sei por experiência própria que essa não é a pergunta certa. Não é, ao menos, a que deixa dormir. A difícil é outra: por que alguém teria que gostar de você?

Você nasce, passa vinte anos pendurada no vínculo mais demorado que existe. Os pais são os melhores amigos dos terapeutas: duros ou bonzinhos demais, tanto faz — você vai acabar pagando duzentos reais a sessão para falar deles. É deles que copiamos tudo, o jeito de segurar o garfo e o jeito de engolir desaforo. E eles, em troca, depositam em nós a vida que não tiveram: o diploma que faltou, o casamento que prestasse, a casa própria. A gente cresce carregando procuração de sonho alheio.

E tem a aula prática. Em casa, você assistiu anos a fio a uma mulher — quase sempre a mãe — sustentando pela força da conveniência uma relação que a corroía, ouvindo e calando para o barulho passar. O barulho nunca passa; só abaixa o volume. Foi assim que você aprendeu o que é amor: uma coisa que se aguenta.

Aí, claro, você não alcança tudo o que projetaram. Não tinha como — parte de você foi construída por conta própria, nas batalhas que eles nem ficaram sabendo. Mas a conta chega assim mesmo: se não consegui agradar nem aos dois que me fizeram, quem mais haveria de me querer? E lá vai você, de relacionamento tóxico em relacionamento tóxico, estendendo a mão para estranhos atrás do troco de um carinho que ficou devido na infância. Ele nunca vem. Não assim, não cobrado.

Desço na minha rua, desejo boa noite à moça. Agora vou stalkear o perfil de Instagram da minha última desventura amorosa, que não foi a lugar algum. Feliz Dia dos Namorados.

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