Palavra cruzada

Todo mundo tem na família aquele indivíduo que ninguém entende muito bem. Não se comunica direito ou fala demais; perde-se no encanto de uma conversa emendada na outra, ou simplesmente não participa dela. Não sorri com os dentes e nunca se casou. Pois essa última característica caiu por terra hoje, com o meu estranho da família.

Conheço-o desde sempre. Nas mais remotas memórias da infância, ele estava lá. E, no entanto, não me lembro de um único momento em que tenha se metido em confusão, se endividado ou namorado. Sempre achei que tocava a vida sem dizer nada a ninguém — prestativo, calado, igualzinho ao príncipe Míchkin, o protagonista de O Idiota, de Dostoiévski.

E foi pela idiotice mesmo que pareceu perecer. Por mais que seja gente boa e bem-quisto por todos à sua volta, é nítido que algo nele escapa: a falta de amigos, a falta de garotas, a falta de maturidade. Sabe quando alguém é estranho um tanto além do que se imagina saudável? Pois é ele.

Depois de tanto tempo só, arrumou enfim uma namorada. Garota simples e de poucas posses, par que ele talvez nunca esperasse encontrar. Apressado, botou logo o Brasil para andar e engravidou a moça. Para se ter ideia da estranheza que o cerca, a família cogita um complô entre a sogra — que é mãe dele — e a menina grávida, para empurrá-lo de vez à vida matrimonial e católica. Um ultraje. Pena que, pela pouca condição financeira que têm, ele terá de conviver mais com o avô do que gostaria.

Tudo bem: problema deles. A minha parte eu fiz nessa bodega! Peguei o avião que parte de São Paulo e vim para Aracaju prestigiar seu momento de felicidade. Mas não escapei do tema da crônica de hoje: a família.

Gordo que sou, minha avó me chama de “ursinho”, e eu não tenho coragem de cruzar a esquina dela sem uma boa dose de palavras cruzadas de presente. Parece criança: quando aporto em sua casa, ela olha para as minhas mãos antes mesmo de abrir a porta. Sento-me na sala e logo vem o baldinho de café com bolachão. É tempo de São João, e ela não esquece.

— Zé! Tá saindo um milho do fogão agora. Mas vê se tu lembra: é uma colher de sal e meia de açúcar pra esse negócio ferver direito.

— Tá bom, vó. Me dá pra cá essa peste de milho.

Mastigando o milho — e metade da bochecha, de tão quente —, ficamos conversando. No meio do caminho, entrego as tão desejadas palavras cruzadas. E é de assustar a virada da coisa.

— Toma, vó. Suas palavras cruzadas.

— Quem mandou você gastar dinheiro com isso aqui?

Ué. Eu pensava que ela queria. Mas não é bem assim. Criada em meio à miséria do sertão nordestino, minha avó carrega um medo visceral de passar fome de novo. Cada centavo conta — e não consigo achar que ela esteja errada.

— Depois você passa necessidade e eu não estou mais viva pra te ajudar.

— Calma, vó. Não é pra tanto. Não me faz diferença o dinheiro de meia dúzia de livros de palavra cruzada. Ainda mais para a senhora.

— Depois você precisa de dinheiro pra um saco de bolachão e não diga que não te avisei.

Pois é. Assustado com a sinceridade e conformado com a impossibilidade de mudá-la, apenas comi milho com café e assisti ao programa policial em silêncio.

Não tem jeito, companheiro: a formação do ser humano também se faz de traumas. E, dessa vez, não há como negar — foi dos grandes. Cada um de nós é um enigma que os outros tentam, em vão, preencher.

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