A vida é dura, dona Maria. Não é fácil: sempre que uma nova geração aporta no mundo, as anteriores fazem questão de pegar cada dado e colocá-lo sob o julgamento da miséria, tentando assim justificar seus próprios fracassos e a falta de referências que deixaram para o futuro alheio. Hoje mesmo, peguei um copão de café e comecei a ler algumas notícias: “Milton Hatoum toma posse na ABL, veja o discurso”; “21 melhores livros de literatura nacional segundo a Folha” e, claro, “Aumenta o número de jovens com nível superior no Brasil: renda não acompanha”. Opa! Aqui eu me encaixo.
Os jovens de agora também atendem por geração Z — a primeira que desenvolveu parte da vida já com a cara enfiada nas telas. Por mais que seja de costume dos que já estão com o Botox na fatura e os fios brancos aparecendo questionar quem chega sob o escrutínio dos seus valores, a geração de hoje sofre uma pressão diferente: a tecnologia que eles ainda não aprenderam a usar já é cotidiana para quem veio depois.
O dilema, no fim, fica a cargo do capitalismo: o emprego. No momento em que te escrevo, o Brasil tem uma das taxas de desemprego mais baixas da sua série histórica. Nunca houve tanta gente ocupada por aqui. O problema? Boa parte dessa estatística é composta pelos famosos trabalhadores de plataforma: o entregador do iFood, o motorista da Uber, a faxineira da Parafuzo. O que temos, na prática, é uma economia recheada de subempregados sem capacidade de poupança e, muitas vezes, sem condições dignas de trabalho.
Juntando as peças: uma geração digitalizada, com nível superior, recebendo como oferta de trabalho vaga de empacotador de supermercado na CLT ou motorista de aplicativo na Uber. E não para por aí. Se já não bastassem as condições de trabalho, é nítido o aumento de preços e a deterioração da qualidade de vida. A taxa básica de juros hoje é de 14,5% ao ano — ou seja, quem comprar um carro financiado agora pagará algo próximo do dobro do valor em pouco mais de três anos.
Fica, então, o questionamento fundamental: essa é a geração mais preguiçosa da história ou a que herdou os piores empregos disponíveis? Alguns dos cabelos lambidos pela vaca, de terno com ombreira, citam a hiperinflação como pior. Pode até ser; no entanto, naquela época não havia bike do Itaú para alugar nem entrega do iFood para fazer no fim do mês. Tampouco havia metade dos formados em nível superior que temos hoje.
As consequências são nítidas. A mais gritante? Essa geração não se relaciona. O primeiro passo para se relacionar hoje é ter alguns trocados — seja para se cuidar e ainda reclamar que não há mais homem no mundo, seja para bancar uma continha de jantar, ao menos no primeiro encontro. Sem dinheiro e sem tempo de ócio, essa geração não vai se relacionar. Ao menos os homens; as mulheres ainda podem recorrer às gerações anteriores sem grande constrangimento.
Dirão os mais velhos que esta é a pior geração de todos os tempos. Sempre dirão. Nunca houve, e talvez nunca haja, uma geração sequer que tenha o apoio das anteriores. Contudo, antes de aceitar o veredito, sejamos ao menos críticos: a conta que estão pedindo para esta geração pagar foi aberta muito antes dela chegar à mesa.