O caminho ao aeroporto suscita memórias. Durante o voo, estaremos com a nossa própria companhia e, no máximo, um livro e alguma criança chorando — e isso basta para que a memória traga à tona o que importa.
Pois bem, o Dia das Mães se aproxima e quero agradar a minha. Por mais que a viagem seja custosa e pouco confortável, contar que me restam apenas 25 Dias das Mães com ela basta para me pôr no caminho. Assim, tomo o caminho do aeroporto como o natural e o que sacia a minha culpa.
Apesar de o dia ser feminino, é no reencontro com meu pai que penso. O velho não teve a dele. Jovem, aos 14, foi morar com o avô e perdeu o vínculo afetivo que pouco restara com sua matriz. É no cerne dessa questão que sei que surge o egoísmo: Se eu não tive, tu também não terás. E assim foi, o caminho inteiro da zona sul paulista até o aeroporto de Guarulhos pensando no quanto esse trauma toma posse da nossa relação.
Esta última, marcada por mais que algumas brigas. Marcada pelo desafeto e, muito mais, pelo aborto afetivo. Não há que se admirar. Há que se sentir. Ele queria outro filho. E eu queria outro pai.
Já passei dias a fio pensando no que teria feito de errado nessa relação. Culpando-me pelo insucesso dela, olhando para os outros e buscando padrões. Ou, ainda pior, olhando para a relação paterna do outro e tentando entender o que eu poderia copiar para chegar a uma melhor na minha. Foram longos anos procurando, até que eu encontrei.
Encontrei não só uma relação paternal mais bem-sucedida, como também uma relação que, muito provavelmente, teria me feito melhor. Meu melhor amigo — cujo nome resguardo — seria o filho ideal para o meu pai.
Sim, o melhor que ele encontraria: quieto, estudioso, afetuoso, heterossexual — esse eu também sou — e responsável financeiramente.
Um amigo e tanto, eu admito. Contudo, um polo oposto à minha personalidade. Se ele apresenta todas essas características, eu apresento as contrárias. Espalhafatoso, conversador, mentiroso e já quebrei no puteiro. Não com orgulho — com consciência.
Foi pensando nisso que vejo nas proximidades da avenida 23 de maio, um pai abraçado com seus três filhos chorando. Não sei se pelo afeto ou pela miséria, aquele pai apertava cada filho como se fosse a última vez. Apertava seus braços como se soubesse que apenas aquilo lhe resta. E, vendo isso, tenho uma única certeza: ele não é o pai que queria ser, mas o que pode ser.
Pois, assim, pai, tenha a certeza de que eu não sou o filho que você queria ter, mas o filho que você criou. Com as grosserias e os desafetos, com o dinheiro e o silêncio. O filho não é fruto da vontade — é o que sobra de uma série de atitudes e episódios ao longo do tempo, lidos pela consciência de cada um.
Não adianta reclamar, o fruto nunca cai muito longe do pé.